AS EFEMÉRIDES E SEUS DONOS
Há feriados que, embora não
festejados com pompa e circunstância, não são alvo de manipulação, sendo, por
isso, consensuais e outros que estão nos antípodas dessa consensualidade e,
portanto, da dignidade indispensável a tais datas.
Os casos mais evidentes de uns e outros são os feriados de 25 de Abril, de 10
de Junho, de 5 de Outubro e de 1 de Dezembro.
Claro que há grandes diferenças entre uns e outros, datas relevantes da nossa
História.
O de 10 de Junho, por exemplo, comemora nem se sabe bem o quê, uma vez que o
primeiro e determinante acontecimento que levou à nossa identidade nacional foi
a batalha de São Mamede, travada em 24 de Junho de 1128, devendo ser essa,
pois, a da comemoração da Fundação de Portugal. A de 10 de Junho em nada é para
o assunto chamada.
Com ela comemoramos o quê? O facto de o País ter ficado sem o seu Poeta maior,
já que teria morrido precisamente nesse dia e essa a razão por que uma alma
cretina se lembrou de que deveríamos comemorar o dia da Nação nessa data? Se há
datas idiotas nos nossos festejos nacionais, esta é, sem dúvida a maior de todas.
E causa funda estupefacção que os revolucionários de Abril – ou alguns dos seus
aviltadores – tenham deitado abaixo tudo e mais alguma coisa que lembrasse o
Estado Novo e não o tenham feito relativamente, como se impunha, a uma data que
não passa de uma verdadeira treta e a ninguém diz nada, excepto a uma cabecinha
tonta do Estado Novo, como já referi.
Afastado o 10 de Junho, por falta de cabimento, restam as três outras, 25 de Abril,
5 de Outubro e 1 de Dezembro.
O 25 de Abril há-de vir a ter a dignidade de um 5 de Outubro. E merece-a. Ainda
a não tem, contudo. E por que razão a não tem e apenas a virá a ter? E quando a
virá a ter?
Pois bem, não a tem, porque aquela data, que era suposto ser de todos os
Portugueses, parece cada vez mais de apenas alguns, que a têm apequenado, por
se reclamarem seus donos, coutada sua.
Uma data festiva, que devia ser de alegria geral, torna-se, por isso, divisor
comum, contrariamente ao que se impunha que fosse, ou seja, comum, sim, mais
denominador.
Quanto ao momento em que poderá passar a ser uma data consensualizada e aceite,
real e sinceramente festejada por todos, não estou em condições de precisar a
data em que acontecerá. Mas, de uma coisa tenho a certeza: não acontecerá antes
de que se vão todos aqueles que hoje têm a lata de se reclamar seus donos. E outra
coisa estou em condições de garantir. Pode levar mais ou menos tempo, mas vai
acontecer. Felizmente.
Nessa altura, sim, o 25 de Abril, chegará ao patamar do panteão onde se encontram
o 5 de Outubro e o 1º de Dezembro. Por enquanto, infelizmente, não. Os “pais da
pátria… deles” não deixam que tal aconteça. Em desespero de causa, não deixam!...
Portanto, enquanto o feriado de 10 de Junho pouco ou nada diz a quem não foi
alienado pela propaganda do Estado Novo e não é ignorante ou descuidado como os
próceres abrilentos, as outras três datas são representativas de momentos da
História de Portugal que merecem ser recordados. Mesmo sem esquecer que o 1º de
Dezembro tem um lugar verdadeiramente à parte na História Portuguesa.
Porquê? É
que, enquanto o 25 de Abril comemora a reinstauração da Democracia em Portugal
e o 5 de Outubro a implantação da República, conceitos e valores de uma enorme
dignidade a que todos devemos homenagem, o 1º de Dezembro celebra a restauração
da independência do País, isto é, subtrai-nos ao jugo do estrangeiro. E muito
embora todos se revistam de enorme dignidade, não são, ainda assim, comparáveis.
E, precisamente agora, que tanta alminha ignara por aí se indigna por alguma
perda da independência, no seio de uma organização em que todos os membros a
perdem em prol do bem comum que se prossegue, causa verdadeira surpresa que a reconquista
da independência, sacada a ferros das mãos do agressor estrangeiro, em 1 de
Dezembro de 1640, seja levada em tão pouca conta.
Uma última nota de esclarecimento necessário: não fui, não sou e presumo que
jamais virei a ser monárquico.