Os portugueses têm de salvar-se de si próprios, para salvarem Portugal
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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

1715. Beijing 2008



Depois do surpreendente e inolvidável espectáculo que foi a cerimónia de abertura dos Jogos, para que eu prevenira há cerca de dois anos, por ter visto o que vira, talvez não seja exagero afirmar que é de estar atento aos resultados desportivos, designadamente à atribuição das medalhas olímpicas, com especial relevância para as de ouro.





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sábado, 29 de dezembro de 2007

1340. Citação do dia - 29Dez2007

"We’re definitely hoping for the best, but preparing for the worst."
JON KOLB, a member of the Canadian Olympic Committee, on air pollution in Beijing, site of the 2008 Summer Games.
NYT 29Dez2007

"Definitivamente, estamos esperando o melhor, mas preparando-nos para o pior".

Jon Kolb, membro do Comité Olímpico Canadiano, referindo-se à poluição armosférica em Pequim, local da realização dos Jogos Olímpicos de Verão, em 2008.


* * *

Para falar com toda a franqueza, não vi, há um ano, assim tão assustadora poluição em Pequim. Vi, isso sim, noutros locais da China. Em Pequim, pelo contrário e como tive oportunidade de mostrar aqui por fotos, não são erguidos mais de 2 ou 3 arranha-céus sem se os rodear de extensa área de zona verde, com jardins, relva, flores e árvores, num raio de 50 a 100 metros, coisa que não se vê em mais parte nenhuma, designadamente em outras cidades onde os Jogos têm vindo a ser realizados.

Não estive em Chonking (30 milhões de habitantes, mas a milhares de km de Beijing), a grande ameaça à recordista mundial, Cidade do México, a 2.000 metros de altitude e com 17 milhões de habitantes - fora os arrabaldes -, essa, sim, com índices de poluição atmosférica de estarrecer e que se vê à vista desarmada.

E, aí, a poluição é tal que, todolos dias por las 5 de la tarde, chove que se farta durante 10 minutos a 1/4 de hora, após o que, nos dias menos favoráveis dos desfavoráveis - que são todos - nada há que não fique marcado pela lama, resultante da passagem da chuva pelas partículas de poluição em suspenso na atmosfera.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

1213. Arqueiro do imperador Qin

Descoberto por acaso, por um agricultor, em 1974, em Xian, o túmulo do 1º Imperador chinês, Qin (Chin) tem vindo a revelar uma imensidão de estátuas de terracota, representando um exército de mais de 7.000 mil homens e cavalos e até alguns carros de combate, tendo, até ao momento presente, sido trazidos à luz do dia pouco mais de 1/7.
Tal exército teve como incumbência guardar os restos mortais do imperador e admite-se que se trata de uma variante da ideia original que consistiria em fazer enterrar o exército, ele mesmo.
À última hora, porém, por razões não bem apuradas, desistiu-se do projecto, tendo-se optado pelas estátuas, que são todas originais, uma vez que cada uma corresponde à efectiva figura de um soldado.

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quarta-feira, 23 de maio de 2007

domingo, 11 de março de 2007

938. Vêm aí os chineses… (10) – O planeta dos filhos únicos

(...) A lei do filho único travou brutalmente o aumento da população, que hoje em dia regista um crescimento de apenas 0,7 por cento ao ano. Ainda uma geração atrás, a China tinha um número de habitantes equivalente a uma vez e meia o da Índia: dentro de dez anos, a Índia tê-la-á atingido com o valor de 1,4 mil milhões. O êxito chinês não foi totalmente indolor. Quando, no final dos anos 70, foi decidido o controlo dos nascimentos (…) a lei era aplicada pelo Partido Comunista através de métodos autoritários (incluindo alguns abortos forçados) (…).Seguiram-se instrumentos mais suaves, com os desincentivos fiscais e assistenciais (depois do primeiro filho, os impostos aumentam e a escola encarece). (…) Actualmente, nas metrópoles «americanizadas» de Pequim, Xangai e Guangzhou, os jovens preferem desfrutar do desafogo económico, as mulheres pensam na carreira, a tendência social dos casais que decidem não ter filhos alastra sem necessidade de planificações vindas de cima, mas por sua própria escolha. De repente, o governo de Pequim dá por si a ter de enfrentar (…) todos os problemas decorrentes da diminuição da natalidade: envelhecimento acelerado da população, a necessidade dum sistema de segurança social, crises no sector da saúde.
Xangai (…) já se encontra a braços com os sintomas de falta de jovens no mercado de trabalho. Em mais uma demonstração de estar na vanguarda das mudanças políticas, Xangai foi a primeira a quebrar o tabu: as autoridades da cidade ofereceram incentivos fiscais aos casais que têm dois filhos. A nível nacional, o presidente Hu Jintao nomeou uma força de intervenção de 250 demógrafos e economistas encarregados de reexaminar a política de nascimentos. Alguns especialistas aconselham a adopção oficial da «política dos dois filhos», que será indispensável a longo prazo para estabilizar a população e garantir o equilíbrio entre velhos e novos.
(…) O desequilíbrio entre homens e mulheres encontra-se entre as consequências colaterais da campanha contra as famílias numerosas.
Ainda que dos anos 70 em diante a maioria dos chineses tenha sido forçada a acatar as directivas do filho único, não foi por isso que abandonou antigos valores como a crença na superioridade do homem: trata-se de preconceitos ancestrais, herança duma sociedade agrícola na qual as mulheres eram consideradas menos produtivas, até porque, após o matrimónio, eram obrigadas a servir a família do marido ajudando e cuidando dos sogros. Com a proibição de ter mais que um filho, para muitas famílias chinesas tornou-se ainda mais importante o facto de gerarem um herdeiro do sexo masculino. Nos anos 80, o infanticídio das recém-nascidas conheceu um novo surto alarmante, obrigando as autoridades a uma primeira alteração de rota: se o primeiro filho fosse do sexo feminino, nas zonas rurais, a autorização para ter um segundo filho era imediatamente concedida. Contudo (…) foram difundidos por toda a China novos meios, como a ecografia. A possibilidade de conhecer com certeza o sexo do nascituro determinou o recurso ao aborto em larga escala para evitar o nascimento de raparigas. (…) Pequim baniu as ecografias, mas com resultados modestos (…) a discrepância entre os dois sexos continua notória. Com base no último recenseamento demográfico, a China conta com uma proporção de 120 homens para 100 mulheres. (…). Por este andar, no final da próxima década, a China terá um número de homens adultos condenados ao celibato compreendido entre os 30 e os 40 milhões. Na ausência de medidas correctoras extremas e improváveis (…) uma superabundância tal de homens desencadeará patologias e tensões sociais. (…)
O risco contra o qual Pequim se deveria prevenir é porém de outro tipo, o risco de instabilidade interna.
(…) pressente-se o receio de criar uma geração de rapazes prontos a explodir. Basta tornar a ver as gravações televisivas de 1989 para recordar que não foi com certeza uma população de senhoras de idade avançada que desceu às ruas para se manifestar contra o regime e desafiar os seus carros blindados. A derradeira fogueira de protestos, como tantas outras que a precederam, teve como protagonistas absolutos os estudantes universitários. Na sua grande maioria, do sexo masculino. (…)
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Talvez que o sôr ingenhêro e noss’primêro devesse tomar mais atenção ao que se passa no mundo, principalmente no mundo que vai ser determinante no decurso deste século.

Se aproveitasse os momentos livres que tem para ler livros como este (Il Sécolo Cinese, de Federico Rampini) e outros, que por aí há a alertar, talvez que abandonasse a ideia de se meter, e ao país, em políticas caducas, que apenas revelam atraso civilizacional, mas também político e demográfico e, desse modo, deixássemos de ser conhecidos como meros imitadores, mas apenas do que de mau vem lá de fora.

É de duvidar, porém, que algum dia tal venha a acontecer. O sôr ingenhêro e noss’primêro tem revelado ser homem de apenas uma verdade, sem evidenciar “disposição” para apreciar outras realidades… mais realistas do que a sua.

sexta-feira, 9 de março de 2007

935. China anuncia nova lei da propriedade

China announces new property law

China has unveiled a landmark law that will boost the protection of private property rights.

This is the first piece of legislation in the Communist country to cover an individual's right to own assets.

Analysts say the move is an important step away from Chinese egalitarianism and towards a market economy.

The bill will also reportedly boost protection against land seizures, which have become a major source of unrest among farmers in rural areas.
(...)

BBC News, por amabilidade de Henrique Sousa
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sábado, 3 de março de 2007

921. A China. De há meses para cá...

Sim, de há meses para cá tenho vindo a alertar para a realidade chinesa.
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Aquela de que foi possível aperceber-me, quando lá estive, em Novembro passado.
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Impressionou-me de tal forma que, desde então, tenho vindo a escrever posts sobre o assunto e a transcrever parte do livro O século chinês, do jornalista italiano, correspondente do jornal La Repubblica, em Beijing, Federico Rampini, livro que considero de leitura indispensável para quem pretenda perceber o que está a acontecer e não quer ser completamente surpreendido, quando os Jogos Olímpicos de 2008 acordarem para a realidade muita gente nos meios de Comunicação Social, que parece andar um tanto desfasada das realidades contemporâneas. Principalmente, as estações de TV portuguesas, entretidas que exclusivamente se mostram, com meras notícias de âmbito paroquial, de conteúdo ao nível das mais baixas comadrices.
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Parece que a realidade está a começar a surgir aos olhos de outros... Neste caso de Rui Teixeira Santos, no Semanário.
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(Com agradecimento à Sulista)
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sábado, 24 de fevereiro de 2007

898. Shangai - 9

Click na foto, para ampliar

Peço a atenção para a circunstância de, em todas as fotografias que publiquei e vou ainda publicar, se poder constatar que, tal como anteriormente afirmei, também aqui e à semelhança de Beijing, quase não há um arranha-céus - ou um conjunto de dois ou três - que não tenha junto de si espaços verdes e, mesmo quando isso não seja muito possível, pelo menos arborização razoável.

Isto, sim, revela preocupação com qualidade de vida, numa metrópole habitada por mais de 20 milhões de pessoas.
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

896. Shangai - 8

Click na foto, para ampliar


Esta não é uma das maiores avenidas. No entanto, atente-se na zona rodoviária (5 faixas), na zona cicloviária (1 faixa, mesmo a calhar para o Carneiro...) e na zona pedestre (1 faixa), em cada sentido da via... E as três zonas bem delimitadas. Em Pequim ainda é notória essa delimitação.

Anote-se igualmente o arvoredo.



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quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

821. Vêm aí os chineses... (6) - Alibaba.com



Continuamos com Federico Rampini, em “O Século chinês”.

(…)
No hipermercado (…) hard-discount Costco, há um televisor de ecrã gigante em oferta especial a 229 dólares, e é possível levar para casa um leitor de DVD por 99 dólares. As marcas são a holandesa Philips e japonesa Sony, mas a Holanda e o Japão têm pouco que ver para o caso: ambos são «made in China». No Wal-Mart, o rei das grandes superfícies americanas, os preços reduzidos têm uma única explicação: 80 por cento dos produtos são oriundos da China.

A 9960 quilómetros de distância de Santa Barbara, vive Ma Yun, também conhecido por Jack Ma. A avançada arrebatadora dos produtos chineses sobre os consumidores ocidentais exerce sobre ele um efeito particular. Sentado em frente do seu computador em Hangzhou, cidade costeira nas imediações de Xangai, Ma Yun está a receber diariamente 100 000 dólares de lucro líquido, domingos incluídos.


Tinha 34 anos em 1999, quando inventou o site que hoje em dia faz tremer o eBay, o Yahoo, a Amazon: Alibaba.com é a página virtual na qual 7 milhões de importadores de duzentos países do mundo «encontram» e fazem diariamente negócio com 2 milhões de empresas chinesas.

A portagem é modesta: 5000 dólares por cabeça todos os anos. No Alibaba.com um comerciante italiano ou espanhol pode consultar e comparar entre si as diversas opções de máquinas de lavar loiça, de trens de cozinha ou de calças de ganga “made in China”, para depois seleccionar a sua preferida e efectuar a compra sem necessidade de enfrentar as dispendiosas transferências intercontinentais. Existe até um fluxo de empresas ocidentais que, através do Alibaba-com, deslocalizam a sua inteira produção para a China.
(…)

Creio que qualquer comentário ao que fica transcrito é perfeitamente dispensável, se não redundante, pelo que me fico por aqui. Até uma próxima vez. Em breve.

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

809. Vêm aí os chineses… (5) – A intérprete de Deng

在这里,我再度是
(Aqui me tem de novo)

A descrição de Federico Rampini deixa-nos, mesmo àqueles que foram prestando alguma atenção ao despertar chinês, verdadeiramente perplexos. Lendo agora isto e rememorando o que in loco foi visto recentemente, não canso de me confessar estupefacto e... expectante!

Rampini, novamente:

(…) A 7 de Dezembro de 2004, a IBM, a multinacional norte-americana que, mais que qualquer outra, associamos à informática, vendeu, por 1,75 mil milhões de dólares, toda a sua actividade no sector dos computadores pessoais a uma empresa estatal chinesa, a Lenovo. Um dos símbolos do capitalismo americano e da tecnologia passa de facto a estar sob o controlo do partido comunista de Pequim. É uma viragem que teria sido impensável ainda há poucos anos. Vem confirmar a ascensão económica chinesa e as transformações nos equilíbrios de forças da economia global. É uma época que chega ao fim. A IBM, de acordo com uma sondagem da Business Week, é a terceira empresa americana mais conhecida no mundo inteiro depois da Coca-Cola e da McDonald's. (…) Ainda que não tenha sido a IBM a inventar o computador pessoal, foi esta a impô-lo nos mercados mundiais como um produto de massas, inaugurando a era da informática difundida a partir de 1981.
A empresa de Pequim que conquistou a IBM - e cuja designação original era Legend - é já hoje em dia o primeiro produtor de computadores na China e em toda a área do Pacífico asiático. o grupo chinês saltou para o terceiro posto mundial, atrás das norte-americanas Dell e Hewlett-Packard-Compaq. O presidente da Lenovo, Yang Yuangqing, declara: «Nós não vamos ficar por aqui, não nos contentaremos com o terceiro lugar.»
Numa primeira análise, a operação representa até uma espécie de deslocalização às avessas. Estamos habituados a que as multinacionais dos países ricos, para reduzir os custos, descentrem a actividade e os postos de trabalho para a China. Desta feita, a multinacional chinesa assume a seu cargo 10 000 funcionários da IBM, dos quais 4000 trabalham já em instalações chinesas, enquanto 2500 se encontram em território dos Estados Unidos, e os restantes, espalhados pelo resto do mundo. O emprego daqueles 2500 norte-americanos depende agora das decisões tomadas por Pequim. É possível que um dia a empresa dirigida pelo partido comunista tenha de anunciar despedimentos e negociar no papel de patrão com os sindicatos da América capitalista.
(…) Um outro sinal dos tempos é visível na ausência de resistência na América. Nos anos 80, quando o Japão estava forte e as suas multinacionais invadiam os Estados Unidos através da compra da Columbina e do Rockfeller Center, difundiu-se a psicose do «perigo amarelo». E, no entanto, o Japão, por muito competitivo que fosse então no plano industrial, do ponto de vista político, era um estado-vassalo, que contava com a frota militar dos Estados Unidos nos seus portos. A China não é certamente um satélite, pelo contrário, a administração Bush considera-a um rival estratégico. Por que motivo o governo dos EUA não procurou impedir a operação?
Antes de mais, porque a entrada da China na competição mundial transformou os computadores num objecto de uso quotidiano, produzidos em larga escala e cujas margens de lucro são arriscadas: como tal, a lógica económica incita a indústria americana a evitá-los. Para além disso, as regras da OMC dificultariam um veto político e a China poderia retaliar contra as multinacionais norte-americanas que investem no seu território, desde a Microsoft à General Motors. Por fim, a China possui um formidável poder contratual em relação a Washington: no final de 2004, o seu Banco Central acumulou 600 mil milhões de dólares de reservas monetárias, dos quais 200 mil milhões em Títulos do Tesouro dos EUA. Pequim é o banqueiro dos Estados Unidos.
Para além da neutralidade de Bush, surpreende a ausência de reacções negativas por parte da opinião pública norte-americana. Não se registaram sinais de alarme nem no mundo político, nem no sindical. No dia seguinte ao anúncio, entre os meios de comunicação social destaca-se um The New York Times muito positivo que traz como título «Uma ponte entre duas culturas», sublinhando, em tom satisfeito, que a Lenovo se prepara para transferir o quartel-general dos seus computadores pessoais para Nova Iorque (embora continue a manter as suas sedes estratégicas de Pequim e Hong Kong), e cita um economista que considera a operação «um sinal encorajador da criação de laços cada vez mais fortes entre a China e os EUA».

(…) A história da Legend-Lenovo, e a personalidade dos seus dirigentes, ilustra a estrepitosa transformação ocorrida na China.
(…) Todavia, uma vez abertas as fronteiras, a Legend suporta magnificamente o choque da concorrência. Escolhe o slogan: «It's cheap, it works, and it's Chinese» (é barato, funciona e é chinês).
(…) Actualmente a Legend detém o primado absoluto, com 28 por cento dos computadores vendidos na China. Dell, IBM e HP não chegam, todas juntas, a metade das suas vendas.
(…) Uma outra consequência surpreendente deste acontecimento é que a dirigente mais poderosa do grupo Lenovo é uma mulher de cinquenta anos, Ma Xuezheng, directora financeira, responsável pela cotização na Bolsa de Hong Kong e das relações com os investidores estrangeiros. A sua biografia é um exemplo da atribulada história chinesa. Em 1976 - o ano da morte de Mao e o momento em que é assinalado o fim da Revolução Cultural – Ma Xuezheng consegue obter a licenciatura na Escola Normal de Pequim apesar da crise do sistema universitário provocada pelas campanhas dos Guardas Vermelhos contra a «cultura burguesa».
Durante aqueles anos de isolamento para a China, vai para Inglaterra estudar a língua e a literatura inglesas. Regressada à pátria, entra na prestigiada Academia das Ciências Sociais e torna-se intérprete dos dois líderes políticos fundamentais na história das últimas décadas: Deng Xiaoping e Hu Yaobang. O primeiro é o homem das reformas, que abre a China à economia de mercado. O segundo, secretário do partido entre 1980 e 1987, possui ideias tão democráticas que simpatiza com os primeiros movimentos de contestação estudantil; em 1987, é obrigado a demitir-se e quando morre, em 1989, o seu funeral é a faísca que faz explodir o movimento da praça Tien’anmen. O trágico 1989 é o ano em que Ma faz a mesma escolha que muitos jovens da sua idade: abandona o mundo da política e dedica-se aos negócios. Ma e a sua geração estão a atingir metas que teriam deixado estarrecido até mesmo um visionário como Deng: agora os gestores e os engenheiros da IBM recebem ordens da sua antiga intérprete.
(…) Um mês decorrido sobre a operação Lenovo na América, é a vez de o magnata Li Ka-shing de Hong Kong causar furor em Paris: compra a Marionnaud, a maior cadeia de perfumarias da Europa, com 500 lojas em França e outras centenas de pontos de venda espalhados pela Itália e a Espanha, a Suíça e a Áustria.
(…) o governo de Pequim encara-o (a Li Ka-shing) com benevolência, e esta China capaz de comprar empresas desperta a imaginação dos franceses. A operação Marionnaud acabou por ir parar à primeira página do diário francês Le Monde, até porque o preço causou celeuma: quase mil milhões de euros. Um preço excessivo, no parecer de muitos especialistas. A confirmação de que, para os grandes grupos chineses, os recursos financeiros não constituem um obstáculo.
A indústria francesa, habituada como a italiana a lamentar-se da concorrência desleal do «made in China», vê-se obrigada a rever os seus preconceitos: a China já não se contenta em ser a fábrica do planeta, o exportador de bens de baixo valor acrescentado. Chegou a hora das multinacionais chinesas. (…) Aos franceses que inventaram os «campeões nacionais» - grandes empresas a serem mantidas com recursos estatais, porque determinam a competição global - causa uma certa impressão vê-las tornar a surgir em Pequim. O senhor Li Dong-sheng, de 47 anos de idade, presidente da Ta, é também membro do Congresso Nacional do Povo. A convivência entre política e negócios é passível de ser criticada... desde que nos esqueçamos de quantos présidents-directeurs-généraux parisienses das indústrias pública e privada iniciaram a respectiva carreira nos gabinetes ministeriais.
Tendo em conta que a China é a segunda potência económica atrás dos Estados Unidos - se convertermos o PIB em paridade de poder de compra -, no futuro, o «lugar» das multinacionais chinesas no mundo não será marginal. Antes de ter lançado os seus campeões na campanha de aquisições no estrangeiro, Pequim acolheu as empresas estrangeiras em sua própria casa. 59 por cento das exportações chinesas são realizadas por grupos estrangeiros. Para um país desta dimensão, trata-se dum grau de abertura sem precedentes.
Seguramente, nem o Japão nem a Alemanha, nem a França nem a Itália, países com uma tradição capitalista mais antiga, alguma vez deram mostras do pragmatismo que tiveram os chineses ao deixar-se primeiro «colonizar» pelas multinacionais para depois aprender com elas e transformarem-se em seguida em conquistadores.

(...)

Aqui está o pé em que as coisas actualmente se encontram. Mas há mais, muito mais. E 2008, podem crer, vai ser o ano das surpresas em catadupa.

很快,我将跟你一起,再次
(Em breve estarei consigo uma vez mais)

Nb.- A foto foi recolhida no interior da gruta das Flautas de Cana, em Guilín.

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terça-feira, 16 de janeiro de 2007

806. Vêm aí os chineses… (4) – Fórmula Um

您好跟每个人
(Boa tarde a todos)

Reporto-me, como sempre, a Federico Rampini, correspondente em Pequim do jornal italiano La Repubblica:


(…)
“A corrida de automóveis mais importante da história”. Assim definiram os dirigentes da Mercedes o Grande Prémio de Fórmula Um disputado em território chinês. Não pela emoção do resultado (…) mas (…) pelo “início de uma nova era”.


A 26 de Fevereiro de 2004, a F1, o desporto que exprime todos os excessos da sociedade consumista estreou-se no coração do novo capitalismo global (….) em Xangai, a sedutora capital dos negócios e da moda na nova China pós-comunista.

(…)
O novo circuito de Xangai-Jiading – uma obra no valor de 300 milhões de euros – foi concebido pelo especialista alemão Hermann Tilke, possui uma estrutura futurista com o formato de uma asa de 140 metros de comprimento (…). É a cenografia do espectáculo que o canal de televisão estatal chinês CCTV transmitiu para o maior número de ecrãs do planeta: a população de 1,3 mil milhões encontra-se agora praticamente toda “catodizada”. Na China, o rosto de Michael Schumacher sorri nos cartazes ao longo das auto-estradas (…).

“A aquisição de automóvel é o símbolo de estatuto desta geração da China, com o boom da economia e da difusão do bem-estar material em massa, tornámo-nos os novos adeptos do volante”, afirma Yu Zhifei, gerente do Shangai Internacional Racing Circuit.

(…)
Se bem que seja verdade que na China o rendimento médio ainda não ultrapassa os 1000 euros por ano, entre os 1,3 mil milhões encontram-se 200 milhões da classe média urbana que podem aspirar ao automóvel e 20 milhões de neoburgueses com um nível de vida elevado, mesmo segundo critérios ocidentais.

(…)
A Ferrari inaugurou o showroom de Xangai no início de 2004 com a intenção de abrir uma rede de concessionários em mais 12 cidades, dentro de ano e meio. A BMW revela uma informação surpreendente: as suas viaturas 760Li de 12 cilindros, o topo da gama alemã, vendem-se mais na China do que em qualquer outro país do mundo. As séries 3 e 5 têm uma saída tão grande que a casa bávara as fabrica aqui. E, não menos importante, impõe aos seus fornecedores de componentes que se mudem com ela para a China. (…) Um outro nome célebre nas viaturas de luxo, a Cadillac (…), prevê que dentro de cinco anos um quarto das suas vendas a nível mundial será efectuado na China. (nota: e Rampini esqueceu-se de falar na Buick, cuja frota na China, a nível de monovolumes, é assombrosa!...)

(…)
Os investimentos estatais para adequar as estradas não podem deixar de encorajar a tendência da motorização em massa. À China bastaram dez anos para construir a segunda rede de auto-estradas do mundo, depois dos Estados Unidos: 35.000 Kms. Em 2005, o governo de Pequim aprovou um novo programa tricenal (30 anos) para aumentar as auto-estradas até aos 85.000 Kms, incluindo um projecto (nota: politicamente muito controverso…) de um túnel submarino que ligue o país a Taiwan!!!

(…)
Os investimentos na rede rodoviária são elevados, assim como a velocidade a que estão a ser construídas as novas linhas de metropolitano.

Pequim (…) possui uma rede de auto-estradas urbanas que em nada ficam atrás das highways de Los Angeles (…). Em pleno centro da capital não é raro encontrarem-se vias de oito faixas. Pequim acabou agora de construir o seu sexto anel concêntrico de circunvalação urbana e, para as Olimpíadas de 2008, tem projectado o sétimo.

(…)
Depois de anos de aplicação de elevadas taxas aos automóveis de importação, o governo chinês obteve precisamente aquilo que queria: as marcas americanas, japonesas, europeias, para poderem ser competitivas, tiveram de transferir as suas fábricas para a China. Ora, se não conseguem vender no mercado local toda a sua produção, vêem-se obrigadas a exportá-la. Assim, os operários chineses da Audi farão concorrência aos operários alemães da Audi. Para além disso, a China obrigou as multinacionais estrangeiras a aliarem-se aos produtos chineses. Desta forma, foi “treinada” uma concorrência local.(…)
Fim de transcrição

E a China começou já a comprar grandes marcas no estrangeiro. A Sangyong, na Coreia do Sul, e a MG-Rover inglesa, são exemplos. Mas muitos mais há.


Chamo a sua particular atenção para a parte final da transcrição, que sublinhei a bold. Leia e medite. Certamente que chegará a uma conclusão interessante. E tremendamente incómoda.

Entretanto, enquanto isto se vai passando da forma que se relata atrás, que faz a Europa, já “entalada” entre os USA, o Japão e a Coreia do Sul?

Perde-se em tergiversações, na contemplação do próprio umbigo, sem se aperceber de que à sua volta o mundo está em completa e rapidíssima transformação é não é já o mesmo que era aqui há 5-10 anos atrás.


Há uma caducidade mental e incapacidade de acção, mesmo tolhimento de reacção nos políticos e empresários europeus, que não augura nada de bom para a “velha, caduca e decadente Europa”. A breve prazo, muito breve prazo...

Sim, enquanto “lá fora” se trabalha no duro, para conquistar a vida, na Europa vive-se do passado e de questiúnculas estúpidas e sem sentido. Bruxelas e Estrasburgo são hinos à incompetência geral. Que não levam a parte alguma que não seja ao fundo do poço. Lamacento, pútrido, sem vida, repletos de mortos-vivos, que só ainda não são mortos-mortos, por nem terem percebido que já morreram.

Os chineses vêm aí?! Mas eles já estão cá. A cada esquina. Vamos rasgar os olhos também? Só para não destoar…

Este alheamento, esta atitude de tacanhez mental profunda, este “chamberlanismo” comercial, industrial, geral, enfim, reporto-o à Europa.

Quanto a Portugal, nem vale a pena falar. Com as caricaturas de políticos que nos têm governado e continuam, com os empresários de vão de escada que temos, sempre à espera de que alguém faça o que só a eles cabe, com a força de trabalho que também há por aí, que só respeita direitos que ainda nem sequer adquiriu, mas é lesta a enjeitar deveres, o
nosso destino está traçado: já temos os olhos rasgados.

我将回来
(Hei-de voltar)

(espero que antes de que os chineses dominem o mundo…)

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NB.-
A foto, sobre que deve clickar, para ampliar, é uma vista aérea da Praça Tian'anmen (Praça da Paz Eterna).
Do lado esquerdo do observador, o edifício da Assembleia Nacional Popular;
do lado direito, o do Museu Nacional da China;
ao fundo, depois da grande Avenida da Paz Celestial, todo o conjunto da Cidade Proibida e seus telhados de tijolo;
no interior da Praça, o Mausoléu de Mao Dze Dong.
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segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

804. Vêm aí os chineses… (3) – A geração Ikea

Prossegue Rampini:

A minha tradutora Zhang Yin passa lá (nos armazéns Ikea de Pequim) todos os fins de semana, com o marido, para decorarem a nova casa. A agente mobiliária Liliana Xu compra lá tudo, até mesmo as toalhas das mãos. Zhimin Ma, funcionária duma multinacional farmacêutica, gastou num armário o equivalente ao que o pai ganha em dois meses. É a geração Ikea de Pequim. Os membros da classe média (nota: mais de 200 milhões – Os USA têm 260 milhões de habitantes...), na faixa dos 30 anos de idade, decoram as respectivas casas apenas ao estilo informal mas sofisticado sueco, de design jovem, madeiras claras e linhas ultramodernas.


(…)
Dado o sucesso, os suecos inauguraram um segundo hipermercado do móvel na capital e possuem outros quatro em Xangai, Shenzhen, Guangzhou (Cantão) e mais dez em construção por toda a China.


(…)
A geração dos pais e das mães que viveram a revolução cultural dos anos 70 – os estudos interrompidos, o trabalho nos campos – ou as esperanças políticas dos anos 80 desfeitas na Praça Tian’anmem consola-se hoje em dia com a prosperidade destes filhos. Zhimin, com duas licenciaturas e fluência em três línguas, trabalha na empresa farmacêutica italiana Bracco e aufere um salário oito vezes superior ao do pai (nota: professor de liceu, residente a 4 horas de Pequim e com um salário mensal de 150€): é o bilhete de entrada no novo mundo do Ikea, das idas às compras aos supermercados Carrefour, Matro, Wal-Mart; dos restaurantes de comida rápida Pizza Hut, KFC, dos cafés Starbucks, dos automóveis Volkswagen (nota: o modelo mais baixo é o Passat) e Buick.

Todavia, mesmo em Pequim, este novo mundo não se encontra ao alcance de todos. O rendimento médio na capital, revelam as estatísticas oficiais, é de precisamente 2500 iuanes (250€) por mês.

(…)
Mas a média estatístuica não passa de uma abstracção, num país que, numa questão de meia dúzia de anos abriu no seu interior desigualdades mais profundas que as existentes na Índia.
(...)

Cabe agora aqui referir que, paredes meias com este trem de vida há em Pequim outro. Aquele que se serve do célebre comércio tipicamente chinês, aos preços chineses habituais. Mesmo o próprio Ikea criou uma secção de objectos ao preço único de 1€, para aqueles que não dispõem do poder de compra acima descrito. Também eles são contemplados e neles se está a incutir o espírito consumista, com vista ao futuro.

Onde antes existia apenas uma classe, a dos chineses comuns, todos por igual, de onde apenas se destacavam os dirigentes políticos, notam-se, agora claramente, três estratos sociais, a saber:


* as grandes fortunas, os multimilionários;
* a classe média – a tal que não existia e tem agora salários da ordem dos 250€ mensais;
* os chineses tradicionais, com os rendimentos abaixo deste nível.

O que não se encontra, nem na China do Norte (Pequim, Xi’an), nem na do Centro (Shanghai), nem na do Sul (Guilin) – é qualquer sinal de miséria como se topa por todo o lado na Índia, no Nepal, no México…


E não se encontra igualmente, o mínimo sinal de restrição de acesso seja a que local for. Impressionante!

Voltarei.

sábado, 13 de janeiro de 2007

801. Vêm aí os chineses... (2)

Retomo o tema do incrível – pela grandeza e pela rapidez – desenvolvimento chinês, surgido após a morte de Mao Dze Dong e cujo principal impulsionador foi, sem dúvida, Den Xiao Peng, com a transcrição de uma profecia de Napoleão Bonaparte, proferida em 1816 e transcrita igualmente no livro a que venho a reportar-me (Il Secolo Cinese, de Federico Rampini):

“Quando a China acordar, o mundo estremecerá”
...
Esta profecia está a realizar-se, no ponto de vista económico, sem convulsões sociais, sem mesmo o recurso a poderios militares, a que certamente o imperador francês se referia.

Continuemos a ver o que, com a lucidez que dá o conhecimento de causa, Rampini escreve:

(…)
A OCDE (…) revela uma ultrapassagem notória: os Estados Unidos já não constituem o principal destino dos investimentos do resto do Mundo, tendo sido destronados precisamente pela China como mera preferida das multinacionais. As estatísticas da OCDE incluem a criação de novas fábricas, o aumento da capacidade de rendimento de instalações já existentes e o investimento em empresas locais através de fusões e aquisições.

2003 foi o ano dum terramoto silencioso nas hierarquias mundiais; a China alcançou o primeiro lugar absoluto, atraindo 53 mil milhões de dólares em investimentos estrangeiros contra os 40 mil milhões destinados aos Estados Unidos (…).

Em 2004 a tendência continuou a ser reforçada, e o economista da OCDE Hans Christiansen salienta a novidade do ponto de vista qualitativo: a vaga de investimentos na China já não é orientada pelo objectivo de produzir a baixo custo para depois reexportar para a América ou para a Europa; hoje em dia, a prioridade é entrar na China para desfrutar das potencialidades do consumo local.


(um curto parênteses para enfatizar: “…para desfrutar das potencialidades do consumo local", ou seja, já não interessa tanto a barata mão de obra chinesa mas, agora, sim, mais, o poder aquisitivo dos chineses. O grau qualitativo é, na verdade, estupefactante. Menos, evidentemente, para quem tenha tido a oportunidade de apreciar in loco e in loco se surpreender)

Continuemos:

(…)
Contra os 60 mil milhões de dólares de investimentos estrangeiros na China, A Índia assistiu à entrada de apenas 4, a Rússia, de 1. (nota: aqui começam a desfazer-se ideias feitas quanto à continuação da atracção pela mão de obra barata, como único factor da tão abjurada globalização…). A irresistível atracção pela China não é indolor. Num ano, os investimentos estrangeiros na Europa sofreram um decréscimo de 23%: a perda de interesse das empresas pelo Velho Continente traduz-se numa perda de capitais e de postos de trabalho.

(novo parênteses para uma pequena alusão a este assunto, a qual me parece vir mesmo a propósito:
...
É contra este gigante económico e monstro demográfico e respectivas consequências que a velha Europa - que já se debatia com tremendos problemas numa rivalidade que nunca conseguiu que existisse com os USA, e com as sempre presentes ameaças japonesa, sul-coreana e de Singapura – quer bater-se de igual para igual, sem recursos energéticos, com mão de obra soi-disant qualificada e extremamente dispendiosa, numa Comunidade (UE) em que todos se guerreiam e querem para si os louros e o poderio, sem que, não obstante o passar dos anos, consigam chegar a um acordo minimamente consequente, com as partes livres de redutores preconceitos, agindo de boa fé?
...
E que dizer de outros parceiros, como nós, que, pura e simplesmente pouco ou nada damos para o bolo geral, nos recusamos a admitir a necessidade de reivindicar menos e trabalhar muito mais, para que, então, se justifiquem as reivindicações, de, enfim, deixar de viver à custa das migalhas alheias?
...
Sim, é nestas condições que nós, europeus, que nem sequer nos atrevemos a tomar em nossas mãos a defesa do nosso modo de vida, pretendemos cometer o atrevimento de arvorar a veleidade de pensar que fazemos frente a alguém?)

Mas prossigamos:

(…)
A ascensão da China suscita apreensões, mas exerce também um poderoso fascínio, bem visível nos Estados Unidos. (…) “Se há um país no mundo destinado a suplantar o papel dos Estados Unidos na economia global, este país é a China”, escreveu Ted Fishman.

Relativamente ao valor do PIB, a China já ultrapassou a Inglaterra e a Itália na lista das nações industrializadas (facto que torna agora inexplicável a sua exclusão do G7), atingiu a França e prepara-se para alcançar a Alemanha. Todavia, a medição do PIB monetário é enganadora: na China, a moeda encontra-se subvalorizada e o custo de vida constitui uma fracção do nosso na verdade, o poder de aquisição de um euro em Pequim é muito mais elevado do que em Milão. Por conseguinte, os economistas calculam um outro PIB – ajustado de acordo com a paridade dos poderes de compra – e esta avaliação eleva a China ao segundo lugar mundial, atrás dos Estados Unidos.
(…)
O consumidor é o primeiro a saber o que significa “made in China”. Significa um leitor de DVD nos armazéns de Wal-Mart, por 99 dólares (nota: significa também um computador portátil de ultíssima geração – que em Portugal custa 1.300 a 1.500€, fica lá por menos de 500€). Não existe motor mais potente para a contenção da inflação e a defesa do poder de compra.
(...)

I’ll be back.
...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

800. Vêm aí os chineses… (1)

Reflectindo, ainda que insuficientemente, toda a estupefacção e todo agrado que em mim causou recente visita à China, onde qualquer pessoa pode constatar, certamente com enorme surpresa, mas igualmente com um imenso fascínio não antecipado, regresso hoje a temas chineses, através da transcrição de extractos da introdução ao livro Il Secolo Cinese (O Século Chinês), de Federico Rampini, jornalista italiano, correspondente em Beijing do jornal La Repubblica.

Vejamos, pois:

(…)
A ignorância que a maior parte dos ocidentais revela a respeito da China tem uma atenuante: fomos apanhados de surpresa. Tudo se passou a uma velocidade alucinante. Ainda há 20 anos, Xangai era uma cidade decrépita e estagnada o aspecto dos seus edifícios poucas alterações sofrera desde a Segunda Guerra Mundial, as ruas apinhadas de bicicletas e riquexós a motor ofereciam uma paisagem de Terceiro Mundo, e fazer compras em qualquer grande armazém era uma experiência frustrante, dada a escassez de produtos e a indiferença das empregadas. Bastou fazer saltar a “rolha” do maoísmo, que contivera infinitas energias ocultas, para permitir que o milagre acontecesse. A disciplina e a obediência dum povo para quem o trabalho continua a ser uma bênção; o lendário talento comercial que o comunismo não conseguira suprimir e que permanecia bem visível na diáspora de Hong Kong e Macau, Taiwan e Singapura, São Francisco e Carpi; a parcimónia das famílias e os inesgotáveis fundos de poupança; o respeito confuciano pela instrução: tudo isto permitiu a ocorrência do milagre chinês, aquele “grande salto em frente” que Mao Tsé-Tung não conseguira dar. Hoje Xangai possui um comboio de alta velocidade a que nem a Itália se pode dar ao luxo; o ritmo de construção de novos arranha-céus é tal que, quem se ausentar por seis meses, quando regressa fica desorientado e aturdido com as mudanças. Por entre a explosão deslumbrante das vitrinas, o consumidor é senhor absoluto e desfruta de uma qualidade de serviço sem comparação no Ocidente. A atmosfera vibra de entusiasmo. A China tem consciência de que se encontra no centro do mundo, mostra-se confiante no futuro, e quem lá vive não tarda a deixar-se contagiar pelo seu optimismo tenaz.

Vimo-nos forçados a habituar-nos aos milagres asiáticos: o do Japão, a Coreia do Sul, Hong Kong e Singapura são países que demonstram que sabem queimar as etapas do desenvolvimento. A China, porém, constitui um caso particular e de dimensões tais que a sua descolagem gera choques sem precedentes. Estamos a assistir a um daqueles movimentos sísmicos que alteram o curso da história humana. À medida que se transformar a si própria a uma velocidade inaudita, a China transforma inevitavelmente todo o planeta. Nunca, no mundo contemporâneo, um país emergente deteve semelhante poder para perturbar as relações das forças económicas e os equilíbrios diplomáticos e militares. Nunca se vira nascer do nada, em escassos vinte anos, uma nova classe média urbana de 200 milhões de pessoas dotadas dum poder de compra “ocidental”. A China é a única potência que desafia a influência dos Estados Unidos, e não apenas na Ásia, mas também na América Latina e na África. (Está a começar a fazê-lo também na própria Europa, como bem sabemos…, nota minha). É o país que, tendo acumulado 600 mil milhões de dólares de reservas monetárias, exercita um poder crucial sobre o mundo financeiro de Washington. Os norte-americanos foram os primeiros a compreendê-lo.
(…)

O texto é bem elucidativo do que aí vem. Permiti-me colocar em bold algumas passagens, por as entender de importância vital para o desenvolvimento de qualquer sociedade humana e bem assim, ilustrativos da dimensão e velocidade da transformação que está a ser operada.

Por hoje, ficamos por aqui.

O tema é, porém, inesgotável, pelo que a ele voltarei.