Os portugueses têm de salvar-se de si próprios, para salvarem Portugal
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sábado, 23 de agosto de 2008

1750. O maior espelho natural do mundo


Situado no planalto da Bolívia, o Salar de Uyuni é não apenas o maior deserto de sal do mundo mas um gigantesco espelho natural.


Durante a estação húmida, as chuvas deixam uma finíssima camada de água sobre a planura, que provoca um dos espectáculos naturais mais belos do planeta.






O Salar de Uyuni é um dos principais destinos turísticos da Bolívia, visitado por 60.000 turistas por ano. As pessoas que ali têm estado assinalam que há alturas em que quase se torna impossível distinguir onde no horizonte acaba a terra e começa o céu.







A capacidade de reflexão da luz é tal que os satélites o utilizam para calibrar os instrumentos de medição. O sal reflecte a luz até ao espaço e as condições da atmosfera oferecem a possibilidade de obter medições cinco vezes mais precisas do que as que se fazem sobre o oceano.







A imensa planura resulta da retirada do grande mar que enchia todo o planalto há milhões de anos. O mar retirou-se e deixou a descoberto o que hoje são o Lago Titicaca, o Lago Poopó e os Salares de Coipasa e de Uyuni.


O deserto estende-se por 12.000 km2 tem cerca de 64.000 milhões de toneladas de sal. A incidência da luz sobre a superfície molhada provoca a sensação de se estar a caminhar no céu.


Click nas fotos, para ampliar.

NB.- Fotos e texto, este posteriormente traduzido, foram tirados de uma apresentação em powerpoint, que me chegou, sem indicação de autoria.

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quinta-feira, 22 de março de 2007

950. Aldeia global portuguesa (5) – Hoi An (Vietname)

Ponte japonesa em Hoi An

Localizada a sul de Danang, Hoi An era conhecida como Faifo, quando, no séc. XVI, navegadores putao-nhá (portugueses) foram os primeiros europeus a chegar ao Vietname.

A chegada dos portugueses deu-se no ano de 1516. Seguiram-se os missionários dominicanos, igualmente portugueses. Em 1525.

O primeiro entreposto comercial luso foi estabelecido, em 1535, pelo capitão António Faria.

Até ao séc. XIX, Hoi An foi um dos mais importantes portos do sudoeste da Ásia.

Embora a primeira missão católica portuguesa tivesse sido estabelecida em 1596, só em 1615 o cristianismo começou verdadeiramente a ganhar raízes, com os padres jesuítas, que, expulsos do Japão, tiveram guarida nestas paragens.

Após a chegada dos primeiros navegadores, outros portugueses foram arribando às costas do Vietname, designadamente missionários, como ficou dito acima. Aos portugueses seguiram-se espanhóis e também italianos e franceses. Mais tarde, vieram outros, como indianos, filipinos, indonésios e povos do Sião (actual Tailândia).

Vicissitudes várias levaram a que os europeus se fossem afastando dos contactos com os vietnamitas, de tal forma que, no princípio do séc. XVIII apenas os portugueses mantinham relações comerciais com os locais, contactos que, por força do desmanchar do império português, iniciado com a ocupação espanhola e continuado depois, se foram perdendo também.

Posteriormente, em meados do séc. XIX, os franceses colonizaram o território, que até aí havia sido independente. O domínio francês só terminou com a primeira guerra vietnamita (Dezembro de 1946 a Agosto de 1954) que foi decidida com a derrota desastrosa dos franceses, na decisiva batalha de Dien Bien Phu.

A memória da tradição oral dos locais e também algumas igrejas atestam ainda hoje a presença portuguesa em terras vietnamitas.
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domingo, 11 de março de 2007

938. Vêm aí os chineses… (10) – O planeta dos filhos únicos

(...) A lei do filho único travou brutalmente o aumento da população, que hoje em dia regista um crescimento de apenas 0,7 por cento ao ano. Ainda uma geração atrás, a China tinha um número de habitantes equivalente a uma vez e meia o da Índia: dentro de dez anos, a Índia tê-la-á atingido com o valor de 1,4 mil milhões. O êxito chinês não foi totalmente indolor. Quando, no final dos anos 70, foi decidido o controlo dos nascimentos (…) a lei era aplicada pelo Partido Comunista através de métodos autoritários (incluindo alguns abortos forçados) (…).Seguiram-se instrumentos mais suaves, com os desincentivos fiscais e assistenciais (depois do primeiro filho, os impostos aumentam e a escola encarece). (…) Actualmente, nas metrópoles «americanizadas» de Pequim, Xangai e Guangzhou, os jovens preferem desfrutar do desafogo económico, as mulheres pensam na carreira, a tendência social dos casais que decidem não ter filhos alastra sem necessidade de planificações vindas de cima, mas por sua própria escolha. De repente, o governo de Pequim dá por si a ter de enfrentar (…) todos os problemas decorrentes da diminuição da natalidade: envelhecimento acelerado da população, a necessidade dum sistema de segurança social, crises no sector da saúde.
Xangai (…) já se encontra a braços com os sintomas de falta de jovens no mercado de trabalho. Em mais uma demonstração de estar na vanguarda das mudanças políticas, Xangai foi a primeira a quebrar o tabu: as autoridades da cidade ofereceram incentivos fiscais aos casais que têm dois filhos. A nível nacional, o presidente Hu Jintao nomeou uma força de intervenção de 250 demógrafos e economistas encarregados de reexaminar a política de nascimentos. Alguns especialistas aconselham a adopção oficial da «política dos dois filhos», que será indispensável a longo prazo para estabilizar a população e garantir o equilíbrio entre velhos e novos.
(…) O desequilíbrio entre homens e mulheres encontra-se entre as consequências colaterais da campanha contra as famílias numerosas.
Ainda que dos anos 70 em diante a maioria dos chineses tenha sido forçada a acatar as directivas do filho único, não foi por isso que abandonou antigos valores como a crença na superioridade do homem: trata-se de preconceitos ancestrais, herança duma sociedade agrícola na qual as mulheres eram consideradas menos produtivas, até porque, após o matrimónio, eram obrigadas a servir a família do marido ajudando e cuidando dos sogros. Com a proibição de ter mais que um filho, para muitas famílias chinesas tornou-se ainda mais importante o facto de gerarem um herdeiro do sexo masculino. Nos anos 80, o infanticídio das recém-nascidas conheceu um novo surto alarmante, obrigando as autoridades a uma primeira alteração de rota: se o primeiro filho fosse do sexo feminino, nas zonas rurais, a autorização para ter um segundo filho era imediatamente concedida. Contudo (…) foram difundidos por toda a China novos meios, como a ecografia. A possibilidade de conhecer com certeza o sexo do nascituro determinou o recurso ao aborto em larga escala para evitar o nascimento de raparigas. (…) Pequim baniu as ecografias, mas com resultados modestos (…) a discrepância entre os dois sexos continua notória. Com base no último recenseamento demográfico, a China conta com uma proporção de 120 homens para 100 mulheres. (…). Por este andar, no final da próxima década, a China terá um número de homens adultos condenados ao celibato compreendido entre os 30 e os 40 milhões. Na ausência de medidas correctoras extremas e improváveis (…) uma superabundância tal de homens desencadeará patologias e tensões sociais. (…)
O risco contra o qual Pequim se deveria prevenir é porém de outro tipo, o risco de instabilidade interna.
(…) pressente-se o receio de criar uma geração de rapazes prontos a explodir. Basta tornar a ver as gravações televisivas de 1989 para recordar que não foi com certeza uma população de senhoras de idade avançada que desceu às ruas para se manifestar contra o regime e desafiar os seus carros blindados. A derradeira fogueira de protestos, como tantas outras que a precederam, teve como protagonistas absolutos os estudantes universitários. Na sua grande maioria, do sexo masculino. (…)
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Talvez que o sôr ingenhêro e noss’primêro devesse tomar mais atenção ao que se passa no mundo, principalmente no mundo que vai ser determinante no decurso deste século.

Se aproveitasse os momentos livres que tem para ler livros como este (Il Sécolo Cinese, de Federico Rampini) e outros, que por aí há a alertar, talvez que abandonasse a ideia de se meter, e ao país, em políticas caducas, que apenas revelam atraso civilizacional, mas também político e demográfico e, desse modo, deixássemos de ser conhecidos como meros imitadores, mas apenas do que de mau vem lá de fora.

É de duvidar, porém, que algum dia tal venha a acontecer. O sôr ingenhêro e noss’primêro tem revelado ser homem de apenas uma verdade, sem evidenciar “disposição” para apreciar outras realidades… mais realistas do que a sua.

domingo, 4 de março de 2007

922. Vêm aí os chineses… (9) – Revisionismo histórico e saudosismos imperialistas

Adivinhem quem circum-navegou o globo oitenta e sete anos antes de Colombo e cento e catorze anos antes de Magalhães?», pergunta-se num site da Internet da agência noticiosa estatal Xinhuanet.
Resposta certa: «O almirante chinês Zheng He explorou o Ocidente em sete viagens realizadas entre 1405 e 1433, percorrendo 50000 quilómetros e visitando 37 nações». No final do Verão de 2004, mal se extinguira o eco dos festejos pelas vitórias olímpicas dos seus atletas em Atenas (a China ficou em segundo lugar atrás dos Estados Unidos), quando o governo de Pequim lança nos meios de comunicação social oficiais uma celebração anti-Colombo. Trata-se duma tentativa ambiciosa de reescrever uma história oficial demasiado eurocêntrica e, em simultâneo, de legitimar a nova vocação como superpotência a nível planetário demonstrada pela China.
A grande ofensiva contra os recordes do navegador genovês foi desencadeada pela entrada em campo pelo ministro da Informação,Xu Zuyuan: «O governo chinês atribui grande importância às comemorações dos seiscentos anos das viagens de Zheng He ao Ocidente». Xu dirige uma comissão governamental composta por quinze ministros, desde os Negócios Estrangeiros às Finanças, mobilizados para repararem as injustiças cometidas pelos historiadores ocidentais. Sucedem-se conferências e exposições, suplementos especiais nos jornais e concursos com prémios para comemorar a proeza. A televisão pública começa a transmitir uma série em episódios dedicada às façanhas do lendário almirante.
(…)
A importância desta personagem, na verdade, há tempos que também é conhecida no Ocidente. A mando do imperador Cheng Zu, uma frota de dimensões sem par no mundo zarpou em Julho de 1405 do porto de Suzhou, a «Veneza chinesa», próximo de Xangai. A sua missão oficial era o estreitamento de laços com países longínquos e a expansão do comércio de produtos chineses. Era comandada pelo eunuco imperial Zheng He, conhecido também pelo nome de infância de Sanbao (…). Às suas ordens encontravam-se 208 embarcações, com 27.800 homens a bordo. Os barcos de maiores dimensões tinham 146 metros de comprimento e 60 de largura: cada um podia transportar um milhar de passageiros, para além de dispor dos meios técnicos mais avançados para a época. Nenhum país europeu estava em condições de competir com a China de então pela qualidade daqueles nove mastros, das cartas náuticas e das bússolas de bordo.
Para além das tripulações e dos soldados, a frota de Zheng He transportavaum exército de cientistas e intérpretes, de médicos e de meteorologistas. A expedição de 1405 serviu para explorar os mares do Sul da China até à ilha de Java (Indonésia) e do Sri Lanka.
Para Zheng He, tratou-se apenas duma primeira prova. Ao longo dos vinte e oito anos seguintes, a Armada chinesa zarpou umas boas oito vezes em direcção ao Ocidente: do lémen ao Irão, da Somália a Meca, o império chinês alargou desmesuradamente os seus conhecimentos e a sua influência.
Um controverso best-selleranglo-americano, da autoria do historiador naval e antigo oficial da Marinha Britânica, Gavin Menzies, 1421: The l'ear China Discovered the World, (ed. Portuguesa da D. Quixote) sustenta que Zheng He não navegou apenas em direcção a Oeste, e que as suas façanhas foram ainda mais clamorosas que o que se julgava. Menzies afirma ter recolhido provas que demonstram que o eunuco almirante atingiu com a sua frota a América sessenta anos antes de Colombo ter desembarcado nas Caraíbas. Um forte argumento a favor desta tese,segundo Menzies, é a descoberta, por parte dos portugueses, em 1424, duma carta geográfica da América de origem chinesa (…).
As teorias de Menzies sofrem uma contestação tal que o governo de Pequim mantém uma distância prudente, embora simpatize com o perito naval anglo-saxónico. «A ideia de que os chineses tenham descoberto a América antes de Colombo», declara o ministro Xu, «encontra-se ainda dentro do âmbito da investigação académica, e até ao momento não se chegou a conclusões unânimes».
A questão de quem tenha de facto descoberto a América pode permanecer em suspenso. Aquilo que conta, actualmente, é a decisão do governo de Pequim de investir generosamente nas celebrações em honra de Zheng He «dentro do espírito do patriotismo, da amizade entre os povos e na navegação científica», nas palavras do ministro da Informação. «As suas viagens ao Ocidente demonstram que naquela época a China possuía a tecnologia mais avançada, e contribuem para recordar a sabedoria e a coragem do povo chinês em todas as épocas.» Os historiadores ocidentais não contestam o facto de que a China do século XV se encontrava mais avançada, quer em termos de desenvolvimento económico, quer em termos científicos. A descoberta orgulhosa das façanhas de Zheng He constitui também o reflexo da opinião que a China alimenta actualmente de si própria: da conquista do espaço aos recordes olímpicos, da modernização económica à invasão dos mercados estrangeiros, todas as metas se encontram ao seu alcance. Se nos anos 50 Pequim ambicionava assumir a liderança dos países do Terceiro Mundo na coligação dos «não-alinhados», hoje em dia compete na série A: o objectivo mais próximo é ultrapassar o PIB da Alemanha e do Japão, para em seguida apontar o alvo aos Estados Unidos.
(…)
Tal como na época do grande almirante, que viveu seis séculos atrás, a China mostra-se pronta a renascer enquanto potência naval, apagando séculos de humilhação e de subalternização relativamente aos «impérios marítimos», em primeiro lugar o britânico, depois do japonês e por fim o norte-americano. (…)
Da orgia de retórica destaca-se a voz sóbria do historiador Xin Yuan'ou da Universidade ]iaotong, de Xangai. A verdadeira motivação da primeira viagem de Zheng He, esclarece Xin, prendia-se com o facto de a dinastia Ming estar prestes a sucumbir sob o assédio terrestre dos exércitos de Tamerlão, o imperador turco-mongol que conquistara grande parte da Ásia. O almirante foi enviado por mar na busca desesperada de aliados que fossem em socorro do império chinês, então próximo do fim.
A sorte foi benévola com os Ming: Tamerlão morreu repentinamente em 1405, no momento preciso em que acabara de preparar os detalhes finais do plano de invasão da China. Apenas depois de ter sido liberto como por milagre da missão mais urgente de salvar o seu imperador, Zheng He usou a Armada naval para explorar o mundo sem objectivos de poder nem de lucro.
Federico Rampini, in Il secolo Cinese
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(continua)
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sábado, 3 de março de 2007

921. A China. De há meses para cá...

Sim, de há meses para cá tenho vindo a alertar para a realidade chinesa.
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Aquela de que foi possível aperceber-me, quando lá estive, em Novembro passado.
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Impressionou-me de tal forma que, desde então, tenho vindo a escrever posts sobre o assunto e a transcrever parte do livro O século chinês, do jornalista italiano, correspondente do jornal La Repubblica, em Beijing, Federico Rampini, livro que considero de leitura indispensável para quem pretenda perceber o que está a acontecer e não quer ser completamente surpreendido, quando os Jogos Olímpicos de 2008 acordarem para a realidade muita gente nos meios de Comunicação Social, que parece andar um tanto desfasada das realidades contemporâneas. Principalmente, as estações de TV portuguesas, entretidas que exclusivamente se mostram, com meras notícias de âmbito paroquial, de conteúdo ao nível das mais baixas comadrices.
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Parece que a realidade está a começar a surgir aos olhos de outros... Neste caso de Rui Teixeira Santos, no Semanário.
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(Com agradecimento à Sulista)
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919. Aldeia global portuguesa (4) – Nagasaki


D ata de 1543 a chegada dos primeiros navegadores portugueses ao Japão.
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Na verdade, Francisco Zeimoto, António Mota e António Peixoto, arribaram ao Japão por volta de 23 de Setembro de 1543, depois de desertarem da nau de Diogo de Freitas, no antigo Sião (actual Tailândia), e se terem feito ao mar a bordo de um junco, na intenção de chegar à China.
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No decurso de uma tempestade, porém, sofreram desvio que os levou ao arquipélago nipónico, mais propriamente à Ilha de Tamegashima, onde, pelo excelente acolhimento recebido, ofertaram ao respectivo governador uma arma de fogo, o que causou profunda admiração, uma vez que ali era desconhecida.
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Vinte e sete anos mais tarde, em 1570, os portugueses fundaram, na baía de Nagasaki, uma cidade a que deram o mesmo nome.
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Dela fizeram um empório comercial que, durante longo período, foi a porta de entrada para o Japão e a saída do país para o mundo exterior. Os portugueses fizeram chegar a Nagasaki e ao Japão muitos produtos europeus e chineses, até então desconhecidos dos habitantes daquela região do mundo.
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Em 1639, após uma reacção japonesa, desencadeada a partir de 1637, os portugueses acabaram por ser expulsos, e, logo de seguida, outros marinheiros e comerciantes, europeus e asiáticos, que entretanto haviam chegado, o foram também.
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Com o decorrer do tempo e com o desenvolvimento do país, Nagasaki foi perdendo a importância inicial.
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Voltou a ser notícia de primeira página apenas no século passado e por más razões. Em 9 de Agosto de 1945, os americanos nela lançaram a segunda bomba atómica deflagrada em todo o mundo (a primeira foi-o em Hiroshima, três dias antes) na intenção de liquidarem a persistente resistência nipónica, no final da II Grande Guerra Mundial.
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No momento do impacto, morreram cerca de 40.000 pessoas e, vitimados pelos efeitos secundários que ainda hoje, mais de sessenta anos passados, se fazem sentir, outras cerca de 25.000.
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Actualmente tem cerca de 450.000 habitantes. Situa-se na Ilha de Kyushu, na região sudoeste do arquipélago nipónico.
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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

909. Aldeia global portuguesa (2) - Punta Arenas


Se lhe agradou a sugestão que lhe dei no post 907, então deixe que, dentro do mesmo espírito, lhe sugira agora que se interesse igualmente pela história de Punta Arenas, cidade meridional, da Patagónia chilena, na região de Magallanes, ali mesmo ao lado do Estreito de Magalhães, que o nosso navegador atravessou, por volta de Novembro de 1520, tendo aportado a um local de “puntas arenosas” ousandy point”, onde se abasteceu de água, antes do início da longa travessia do Pacífico.

Na região está mesmo assinalado com uma placa, o local, numa pequena colina, a que se deslocou um português, de apelido Alves, que seguia na expedição de Magalhães, com o objectivo de verificar se a baía em que se encontravam tinha saída para o mar, do lado ocidental. O compatriota de Magalhães voltou ao navio com a informação de que não se avistava qualquer saída, mas o navegador teve a percepção de que sim e, por isso, ordenou que se seguisse em frente, acabando por chegar a um enorme Oceano que baptizou de Pacífico, pelo contraste que encontrou entre o que dele se dizia e a calmaria que se lhe deparou.

Mais tarde, no local estabeleceu-se uma pequena povoação, de nome Punta Arenas, onde uma significativa comunidade de portugueses se estabaleceu, tendo tido uma influência decisiva no desenvolvimento da região.
, tendo ...
Se quiser, procure mais notícias na Radio Magallanes ou no jornal La Prensa Austral.
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Fernão de Magalhães tem, no centro da cidade, no local mais destacado, um belo conjunto escultórico perpetuando o seu nome e o feito que o tornou conhecido.
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Mas também outro português teve grande influência em Punta Arenas, de que ele e a mulher, Sara Braun, foram expoentes máximos: José Nogueira.
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José Nogueira foi um dos grandes proprietários de Punta Arenas, tendo construído, em 1890, no centro da cidade, na praça mais importante, uma enorme mansão, onde hoje funciona o Hotel José Nogueira. Mas não se ficou por aí. A obra dele na região é vastíssima.
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No mesmo edifício está igualmente instalada a Casa-Museu Sara Braun, que foi residência do casal. Sara Braun sobreviveu ao marido e, após a morte deste, mandou construir, a inteiras expensas suas, um enorme cemitério que passou a ser pertença da cidade, com uma particularidade, que Sara deixou em testamento.

Consistia
ela em que o último cadáver autorizado a passar pela porta principal do cemitério seria o dela. Todos os posteriores teriam que entrar por portas laterais, de menor importância. E assim se fez…

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Além destes links, que lhe indico, procure outros, a partir de um motor de busca, em “Punta Arenas”, “Hotel José Nogueira”, “Casa-museo Sara Braun”, “Estreito de Magalhães” e tudo o mais que a sua imaginação lhe ditar.

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Vai certamente deparar com coisas que jamais imaginara.

Este mundo é realmente uma aldeia global, graças ao aventureiro e empreendedor espírito português. De antigamente, claro está. Infelizmente.

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Mas o espírito não se perdeu. Está apenas adormecido, esperando que a crise de liderança passe, para que ressurja em todo o esplendor. Algo me diz que assim há-de cumprir-se.
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Pode crer que estas idas ao passado constituem um refrigério para a alma, um retemperador de forças e um renovador de confiança no futuro deste povo, que não pode continuar ad aeternum nesta mediania embrutecedora.
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907. Aldeia global portuguesa (1) – Tristão da Cunha


Com cerca de 300 habitantes, Tristan da Cunha é uma ilha situada no Atlântico Sul, a mais remota a nível mundial (37° 06' S, 12° 18' W). Foi descoberta em 1506, pelo navegador português Tristão da Cunha, quando se dirigia a caminho da Índia.

Ligar-se a Tristan da Cunha, através de Web, será uma forma de se ligar um pouco ao nosso passado aventureiro e glorioso, por forma a dele retirar alguns ensinamentos e conclusões que o/a ajudem a libertar-se da vil tristeza em que ora nos atolamos.
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Existe em Tristan da Cunha um jornal online, o Tristan Times de que você pode receber regularmente uma newsletter, se, para isso, se inscrever no site respectivo.
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Saiba também um pouco mais do descobridor da Ilha.
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Tristão da Cunha, (1460-1540), navegador português, foi proprietário, em Azeitão, entre Aldeia Rica e Oleiros, da Quinta da Torre (não confundir com Quinta das Torres, também em Azeitão, mas esta entre Vila Nogueira e Vila Fresca), foi o primeiro vice-rei da Índia, nomeado em 1505, pelo rei Manuel I, não tendo, porém, chegado a ocupar o cargo.
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Vale a pena estar em contacto com pontos do planeta (e suas gentes) de que os portugueses de antanho deram testemunho.
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Há mais terras e mais gentes. De algumas delas falarei proximamente.
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domingo, 25 de fevereiro de 2007

sábado, 24 de fevereiro de 2007

898. Shangai - 9

Click na foto, para ampliar

Peço a atenção para a circunstância de, em todas as fotografias que publiquei e vou ainda publicar, se poder constatar que, tal como anteriormente afirmei, também aqui e à semelhança de Beijing, quase não há um arranha-céus - ou um conjunto de dois ou três - que não tenha junto de si espaços verdes e, mesmo quando isso não seja muito possível, pelo menos arborização razoável.

Isto, sim, revela preocupação com qualidade de vida, numa metrópole habitada por mais de 20 milhões de pessoas.
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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

896. Shangai - 8

Click na foto, para ampliar


Esta não é uma das maiores avenidas. No entanto, atente-se na zona rodoviária (5 faixas), na zona cicloviária (1 faixa, mesmo a calhar para o Carneiro...) e na zona pedestre (1 faixa), em cada sentido da via... E as três zonas bem delimitadas. Em Pequim ainda é notória essa delimitação.

Anote-se igualmente o arvoredo.



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terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

879. Vêm aí os chineses… (8) – Os melhores a Matemática

América rende-se ao «made in China» também nos bancos da escola. Alarmadas com os péssimos resultados dos seus estudantes do secundário em Matemática e nas disciplinas científicas, nas quais os alunos asiáticos se encontram muito mais avançados, as autoridades académicas dos EUA estão a importar da China os programas de estudo e os métodos de ensino. A esperança é (...) deter o declínio que (...) terá consequências no nível científico da América e na competitividade da sua indústria.
O choque, para os Estados Unidos, chega (...) todos os anos, na época em que é publicada a classificação mundial das nações com base nos resultados da instrução. A lista é compilada através de rigorosos métodos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que tem sede em Paris e congrega os 30 países mais industrializados. A classificação é obtida depois de se terem submetido dezenas de milhares de estudantes - uma elite seleccionada entre os melhores de cada país - a um teste de leitura, matemática e ciências. (...) Há já muitos anos que os estudantes norte-americanos são remetidos para os últimos lugares entre os países desenvolvidos, enquanto no vértice da classificação dominam as nações asiáticas.
Em 2004, o orgulho dos Estados Unidos sofreu um golpe mais duro que o habitual. Os estudantes norte-americanos caíram para o 25º lugar na prova de Matemática, descendo várias posições, porque, pela primeira vez, foram admitidas a exame duas cidades da China comunista, Hong Kong e Macau. (…)
Na prova de Matemática, os estudantes de Hong Kong, mal foram admitidos, conquistaram de imediato o primado absoluto da classificação. Em ciências, o primeiro lugar cabe à Finlândia, mas atrás desta coloca-se um trio asiático: Japão, Hong Kong e Coreia. De registar o óptimo desempenho de Macau, que ainda menos de dez anos atrás era uma colónia portuguesa, mas que adoptou o sistema de ensino chinês: surge classificada entre os primeiros dez países na globalidade das provas. (…)
O receio é de tal ordem que obriga a remédios extremos. O The Wall Street Journal revelou que mais de 200 escolas secundárias americanas (...) adoptaram uma solução radical: importar na totalidade o sistema de instrução chinês, usando os mesmos manuais e os mesmos métodos didácticos. O modelo de longe mais copiado é o programa de Matemática e Ciências de Singapura. (…)
Os professores norte-americanos que utilizam o «método Singapura descobriram que na China os programas científicos são muito menos extensos mas muito mais aprofundados. «Na escola média de Singapura», revela o professor de Matemática Steve Keating, citado pelo The Wall Street Journal, «resolvem problemas de álgebra que até a mim me apresentam dificuldades e que, na América, só são tratados no final do secundário.» (…)
Para os Estados Unidos, os resultados desta experimentação em larga escala já são visíveis, e revelam-se positivos. O «made in China» exporta-se bem mesmo nesta área. Os primeiros testes realizados nas escolas secundárias americanas que utilizam os programas didácticos de Singapura denotam nítidas melhorias dos resultados. Todavia, o National Council of Teachers of Mathematics (…) considera que «para atingir os mesmos resultados de Singapura, não basta adoptar os manuais». Os especialistas sublinham que o facto de na Ásia se fazer uma melhor aprendizagem da Matemática e das Ciências é também fruto de outros factores: «Uma cultura de autoridade e de disciplina, na qual toda a comunidade social, desde os docentes aos pais, espera dos alunos um esforço árduo e uma dedicação total aos estudos.»
(…)
Uma testemunha desta diferença cultural é o americano Peter Hessler, que chegou à China em 1996 (…) para ensinar numa escola secundária de Fuling, na província de Sichuan. Da sua experiência de vários anos (…) recorda o choque perante os métodos de ensino chineses. «Nos meus tempos de estudante na América», revela Hessler, «estava habituado a ter professores que tentavam dourar a pílula: poupavam-me sempre a juízos severos ou a críticas demasiado directas. Mas os meus amigos sino-americanos já me tinham avisado de que nas famílias e nas escolas chinesas não se faz o mesmo. (…) Buduei, está mal. Um sete na caderneta escolar contava menos que todos os dez com louvor nas outras disciplinas. Buduei. Continua a trabalhar. Não fizeste ainda nada que se aproveite.» Neste momento, o passo seguinte a dar pela América parece óbvio: importar professores chineses, impregnados da dura disciplina confuciana.
(…)
Federico Rampini, in Il secolo Cinese

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(continua)

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

821. Vêm aí os chineses... (6) - Alibaba.com



Continuamos com Federico Rampini, em “O Século chinês”.

(…)
No hipermercado (…) hard-discount Costco, há um televisor de ecrã gigante em oferta especial a 229 dólares, e é possível levar para casa um leitor de DVD por 99 dólares. As marcas são a holandesa Philips e japonesa Sony, mas a Holanda e o Japão têm pouco que ver para o caso: ambos são «made in China». No Wal-Mart, o rei das grandes superfícies americanas, os preços reduzidos têm uma única explicação: 80 por cento dos produtos são oriundos da China.

A 9960 quilómetros de distância de Santa Barbara, vive Ma Yun, também conhecido por Jack Ma. A avançada arrebatadora dos produtos chineses sobre os consumidores ocidentais exerce sobre ele um efeito particular. Sentado em frente do seu computador em Hangzhou, cidade costeira nas imediações de Xangai, Ma Yun está a receber diariamente 100 000 dólares de lucro líquido, domingos incluídos.


Tinha 34 anos em 1999, quando inventou o site que hoje em dia faz tremer o eBay, o Yahoo, a Amazon: Alibaba.com é a página virtual na qual 7 milhões de importadores de duzentos países do mundo «encontram» e fazem diariamente negócio com 2 milhões de empresas chinesas.

A portagem é modesta: 5000 dólares por cabeça todos os anos. No Alibaba.com um comerciante italiano ou espanhol pode consultar e comparar entre si as diversas opções de máquinas de lavar loiça, de trens de cozinha ou de calças de ganga “made in China”, para depois seleccionar a sua preferida e efectuar a compra sem necessidade de enfrentar as dispendiosas transferências intercontinentais. Existe até um fluxo de empresas ocidentais que, através do Alibaba-com, deslocalizam a sua inteira produção para a China.
(…)

Creio que qualquer comentário ao que fica transcrito é perfeitamente dispensável, se não redundante, pelo que me fico por aqui. Até uma próxima vez. Em breve.

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

809. Vêm aí os chineses… (5) – A intérprete de Deng

在这里,我再度是
(Aqui me tem de novo)

A descrição de Federico Rampini deixa-nos, mesmo àqueles que foram prestando alguma atenção ao despertar chinês, verdadeiramente perplexos. Lendo agora isto e rememorando o que in loco foi visto recentemente, não canso de me confessar estupefacto e... expectante!

Rampini, novamente:

(…) A 7 de Dezembro de 2004, a IBM, a multinacional norte-americana que, mais que qualquer outra, associamos à informática, vendeu, por 1,75 mil milhões de dólares, toda a sua actividade no sector dos computadores pessoais a uma empresa estatal chinesa, a Lenovo. Um dos símbolos do capitalismo americano e da tecnologia passa de facto a estar sob o controlo do partido comunista de Pequim. É uma viragem que teria sido impensável ainda há poucos anos. Vem confirmar a ascensão económica chinesa e as transformações nos equilíbrios de forças da economia global. É uma época que chega ao fim. A IBM, de acordo com uma sondagem da Business Week, é a terceira empresa americana mais conhecida no mundo inteiro depois da Coca-Cola e da McDonald's. (…) Ainda que não tenha sido a IBM a inventar o computador pessoal, foi esta a impô-lo nos mercados mundiais como um produto de massas, inaugurando a era da informática difundida a partir de 1981.
A empresa de Pequim que conquistou a IBM - e cuja designação original era Legend - é já hoje em dia o primeiro produtor de computadores na China e em toda a área do Pacífico asiático. o grupo chinês saltou para o terceiro posto mundial, atrás das norte-americanas Dell e Hewlett-Packard-Compaq. O presidente da Lenovo, Yang Yuangqing, declara: «Nós não vamos ficar por aqui, não nos contentaremos com o terceiro lugar.»
Numa primeira análise, a operação representa até uma espécie de deslocalização às avessas. Estamos habituados a que as multinacionais dos países ricos, para reduzir os custos, descentrem a actividade e os postos de trabalho para a China. Desta feita, a multinacional chinesa assume a seu cargo 10 000 funcionários da IBM, dos quais 4000 trabalham já em instalações chinesas, enquanto 2500 se encontram em território dos Estados Unidos, e os restantes, espalhados pelo resto do mundo. O emprego daqueles 2500 norte-americanos depende agora das decisões tomadas por Pequim. É possível que um dia a empresa dirigida pelo partido comunista tenha de anunciar despedimentos e negociar no papel de patrão com os sindicatos da América capitalista.
(…) Um outro sinal dos tempos é visível na ausência de resistência na América. Nos anos 80, quando o Japão estava forte e as suas multinacionais invadiam os Estados Unidos através da compra da Columbina e do Rockfeller Center, difundiu-se a psicose do «perigo amarelo». E, no entanto, o Japão, por muito competitivo que fosse então no plano industrial, do ponto de vista político, era um estado-vassalo, que contava com a frota militar dos Estados Unidos nos seus portos. A China não é certamente um satélite, pelo contrário, a administração Bush considera-a um rival estratégico. Por que motivo o governo dos EUA não procurou impedir a operação?
Antes de mais, porque a entrada da China na competição mundial transformou os computadores num objecto de uso quotidiano, produzidos em larga escala e cujas margens de lucro são arriscadas: como tal, a lógica económica incita a indústria americana a evitá-los. Para além disso, as regras da OMC dificultariam um veto político e a China poderia retaliar contra as multinacionais norte-americanas que investem no seu território, desde a Microsoft à General Motors. Por fim, a China possui um formidável poder contratual em relação a Washington: no final de 2004, o seu Banco Central acumulou 600 mil milhões de dólares de reservas monetárias, dos quais 200 mil milhões em Títulos do Tesouro dos EUA. Pequim é o banqueiro dos Estados Unidos.
Para além da neutralidade de Bush, surpreende a ausência de reacções negativas por parte da opinião pública norte-americana. Não se registaram sinais de alarme nem no mundo político, nem no sindical. No dia seguinte ao anúncio, entre os meios de comunicação social destaca-se um The New York Times muito positivo que traz como título «Uma ponte entre duas culturas», sublinhando, em tom satisfeito, que a Lenovo se prepara para transferir o quartel-general dos seus computadores pessoais para Nova Iorque (embora continue a manter as suas sedes estratégicas de Pequim e Hong Kong), e cita um economista que considera a operação «um sinal encorajador da criação de laços cada vez mais fortes entre a China e os EUA».

(…) A história da Legend-Lenovo, e a personalidade dos seus dirigentes, ilustra a estrepitosa transformação ocorrida na China.
(…) Todavia, uma vez abertas as fronteiras, a Legend suporta magnificamente o choque da concorrência. Escolhe o slogan: «It's cheap, it works, and it's Chinese» (é barato, funciona e é chinês).
(…) Actualmente a Legend detém o primado absoluto, com 28 por cento dos computadores vendidos na China. Dell, IBM e HP não chegam, todas juntas, a metade das suas vendas.
(…) Uma outra consequência surpreendente deste acontecimento é que a dirigente mais poderosa do grupo Lenovo é uma mulher de cinquenta anos, Ma Xuezheng, directora financeira, responsável pela cotização na Bolsa de Hong Kong e das relações com os investidores estrangeiros. A sua biografia é um exemplo da atribulada história chinesa. Em 1976 - o ano da morte de Mao e o momento em que é assinalado o fim da Revolução Cultural – Ma Xuezheng consegue obter a licenciatura na Escola Normal de Pequim apesar da crise do sistema universitário provocada pelas campanhas dos Guardas Vermelhos contra a «cultura burguesa».
Durante aqueles anos de isolamento para a China, vai para Inglaterra estudar a língua e a literatura inglesas. Regressada à pátria, entra na prestigiada Academia das Ciências Sociais e torna-se intérprete dos dois líderes políticos fundamentais na história das últimas décadas: Deng Xiaoping e Hu Yaobang. O primeiro é o homem das reformas, que abre a China à economia de mercado. O segundo, secretário do partido entre 1980 e 1987, possui ideias tão democráticas que simpatiza com os primeiros movimentos de contestação estudantil; em 1987, é obrigado a demitir-se e quando morre, em 1989, o seu funeral é a faísca que faz explodir o movimento da praça Tien’anmen. O trágico 1989 é o ano em que Ma faz a mesma escolha que muitos jovens da sua idade: abandona o mundo da política e dedica-se aos negócios. Ma e a sua geração estão a atingir metas que teriam deixado estarrecido até mesmo um visionário como Deng: agora os gestores e os engenheiros da IBM recebem ordens da sua antiga intérprete.
(…) Um mês decorrido sobre a operação Lenovo na América, é a vez de o magnata Li Ka-shing de Hong Kong causar furor em Paris: compra a Marionnaud, a maior cadeia de perfumarias da Europa, com 500 lojas em França e outras centenas de pontos de venda espalhados pela Itália e a Espanha, a Suíça e a Áustria.
(…) o governo de Pequim encara-o (a Li Ka-shing) com benevolência, e esta China capaz de comprar empresas desperta a imaginação dos franceses. A operação Marionnaud acabou por ir parar à primeira página do diário francês Le Monde, até porque o preço causou celeuma: quase mil milhões de euros. Um preço excessivo, no parecer de muitos especialistas. A confirmação de que, para os grandes grupos chineses, os recursos financeiros não constituem um obstáculo.
A indústria francesa, habituada como a italiana a lamentar-se da concorrência desleal do «made in China», vê-se obrigada a rever os seus preconceitos: a China já não se contenta em ser a fábrica do planeta, o exportador de bens de baixo valor acrescentado. Chegou a hora das multinacionais chinesas. (…) Aos franceses que inventaram os «campeões nacionais» - grandes empresas a serem mantidas com recursos estatais, porque determinam a competição global - causa uma certa impressão vê-las tornar a surgir em Pequim. O senhor Li Dong-sheng, de 47 anos de idade, presidente da Ta, é também membro do Congresso Nacional do Povo. A convivência entre política e negócios é passível de ser criticada... desde que nos esqueçamos de quantos présidents-directeurs-généraux parisienses das indústrias pública e privada iniciaram a respectiva carreira nos gabinetes ministeriais.
Tendo em conta que a China é a segunda potência económica atrás dos Estados Unidos - se convertermos o PIB em paridade de poder de compra -, no futuro, o «lugar» das multinacionais chinesas no mundo não será marginal. Antes de ter lançado os seus campeões na campanha de aquisições no estrangeiro, Pequim acolheu as empresas estrangeiras em sua própria casa. 59 por cento das exportações chinesas são realizadas por grupos estrangeiros. Para um país desta dimensão, trata-se dum grau de abertura sem precedentes.
Seguramente, nem o Japão nem a Alemanha, nem a França nem a Itália, países com uma tradição capitalista mais antiga, alguma vez deram mostras do pragmatismo que tiveram os chineses ao deixar-se primeiro «colonizar» pelas multinacionais para depois aprender com elas e transformarem-se em seguida em conquistadores.

(...)

Aqui está o pé em que as coisas actualmente se encontram. Mas há mais, muito mais. E 2008, podem crer, vai ser o ano das surpresas em catadupa.

很快,我将跟你一起,再次
(Em breve estarei consigo uma vez mais)

Nb.- A foto foi recolhida no interior da gruta das Flautas de Cana, em Guilín.

...

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

806. Vêm aí os chineses… (4) – Fórmula Um

您好跟每个人
(Boa tarde a todos)

Reporto-me, como sempre, a Federico Rampini, correspondente em Pequim do jornal italiano La Repubblica:


(…)
“A corrida de automóveis mais importante da história”. Assim definiram os dirigentes da Mercedes o Grande Prémio de Fórmula Um disputado em território chinês. Não pela emoção do resultado (…) mas (…) pelo “início de uma nova era”.


A 26 de Fevereiro de 2004, a F1, o desporto que exprime todos os excessos da sociedade consumista estreou-se no coração do novo capitalismo global (….) em Xangai, a sedutora capital dos negócios e da moda na nova China pós-comunista.

(…)
O novo circuito de Xangai-Jiading – uma obra no valor de 300 milhões de euros – foi concebido pelo especialista alemão Hermann Tilke, possui uma estrutura futurista com o formato de uma asa de 140 metros de comprimento (…). É a cenografia do espectáculo que o canal de televisão estatal chinês CCTV transmitiu para o maior número de ecrãs do planeta: a população de 1,3 mil milhões encontra-se agora praticamente toda “catodizada”. Na China, o rosto de Michael Schumacher sorri nos cartazes ao longo das auto-estradas (…).

“A aquisição de automóvel é o símbolo de estatuto desta geração da China, com o boom da economia e da difusão do bem-estar material em massa, tornámo-nos os novos adeptos do volante”, afirma Yu Zhifei, gerente do Shangai Internacional Racing Circuit.

(…)
Se bem que seja verdade que na China o rendimento médio ainda não ultrapassa os 1000 euros por ano, entre os 1,3 mil milhões encontram-se 200 milhões da classe média urbana que podem aspirar ao automóvel e 20 milhões de neoburgueses com um nível de vida elevado, mesmo segundo critérios ocidentais.

(…)
A Ferrari inaugurou o showroom de Xangai no início de 2004 com a intenção de abrir uma rede de concessionários em mais 12 cidades, dentro de ano e meio. A BMW revela uma informação surpreendente: as suas viaturas 760Li de 12 cilindros, o topo da gama alemã, vendem-se mais na China do que em qualquer outro país do mundo. As séries 3 e 5 têm uma saída tão grande que a casa bávara as fabrica aqui. E, não menos importante, impõe aos seus fornecedores de componentes que se mudem com ela para a China. (…) Um outro nome célebre nas viaturas de luxo, a Cadillac (…), prevê que dentro de cinco anos um quarto das suas vendas a nível mundial será efectuado na China. (nota: e Rampini esqueceu-se de falar na Buick, cuja frota na China, a nível de monovolumes, é assombrosa!...)

(…)
Os investimentos estatais para adequar as estradas não podem deixar de encorajar a tendência da motorização em massa. À China bastaram dez anos para construir a segunda rede de auto-estradas do mundo, depois dos Estados Unidos: 35.000 Kms. Em 2005, o governo de Pequim aprovou um novo programa tricenal (30 anos) para aumentar as auto-estradas até aos 85.000 Kms, incluindo um projecto (nota: politicamente muito controverso…) de um túnel submarino que ligue o país a Taiwan!!!

(…)
Os investimentos na rede rodoviária são elevados, assim como a velocidade a que estão a ser construídas as novas linhas de metropolitano.

Pequim (…) possui uma rede de auto-estradas urbanas que em nada ficam atrás das highways de Los Angeles (…). Em pleno centro da capital não é raro encontrarem-se vias de oito faixas. Pequim acabou agora de construir o seu sexto anel concêntrico de circunvalação urbana e, para as Olimpíadas de 2008, tem projectado o sétimo.

(…)
Depois de anos de aplicação de elevadas taxas aos automóveis de importação, o governo chinês obteve precisamente aquilo que queria: as marcas americanas, japonesas, europeias, para poderem ser competitivas, tiveram de transferir as suas fábricas para a China. Ora, se não conseguem vender no mercado local toda a sua produção, vêem-se obrigadas a exportá-la. Assim, os operários chineses da Audi farão concorrência aos operários alemães da Audi. Para além disso, a China obrigou as multinacionais estrangeiras a aliarem-se aos produtos chineses. Desta forma, foi “treinada” uma concorrência local.(…)
Fim de transcrição

E a China começou já a comprar grandes marcas no estrangeiro. A Sangyong, na Coreia do Sul, e a MG-Rover inglesa, são exemplos. Mas muitos mais há.


Chamo a sua particular atenção para a parte final da transcrição, que sublinhei a bold. Leia e medite. Certamente que chegará a uma conclusão interessante. E tremendamente incómoda.

Entretanto, enquanto isto se vai passando da forma que se relata atrás, que faz a Europa, já “entalada” entre os USA, o Japão e a Coreia do Sul?

Perde-se em tergiversações, na contemplação do próprio umbigo, sem se aperceber de que à sua volta o mundo está em completa e rapidíssima transformação é não é já o mesmo que era aqui há 5-10 anos atrás.


Há uma caducidade mental e incapacidade de acção, mesmo tolhimento de reacção nos políticos e empresários europeus, que não augura nada de bom para a “velha, caduca e decadente Europa”. A breve prazo, muito breve prazo...

Sim, enquanto “lá fora” se trabalha no duro, para conquistar a vida, na Europa vive-se do passado e de questiúnculas estúpidas e sem sentido. Bruxelas e Estrasburgo são hinos à incompetência geral. Que não levam a parte alguma que não seja ao fundo do poço. Lamacento, pútrido, sem vida, repletos de mortos-vivos, que só ainda não são mortos-mortos, por nem terem percebido que já morreram.

Os chineses vêm aí?! Mas eles já estão cá. A cada esquina. Vamos rasgar os olhos também? Só para não destoar…

Este alheamento, esta atitude de tacanhez mental profunda, este “chamberlanismo” comercial, industrial, geral, enfim, reporto-o à Europa.

Quanto a Portugal, nem vale a pena falar. Com as caricaturas de políticos que nos têm governado e continuam, com os empresários de vão de escada que temos, sempre à espera de que alguém faça o que só a eles cabe, com a força de trabalho que também há por aí, que só respeita direitos que ainda nem sequer adquiriu, mas é lesta a enjeitar deveres, o
nosso destino está traçado: já temos os olhos rasgados.

我将回来
(Hei-de voltar)

(espero que antes de que os chineses dominem o mundo…)

...
NB.-
A foto, sobre que deve clickar, para ampliar, é uma vista aérea da Praça Tian'anmen (Praça da Paz Eterna).
Do lado esquerdo do observador, o edifício da Assembleia Nacional Popular;
do lado direito, o do Museu Nacional da China;
ao fundo, depois da grande Avenida da Paz Celestial, todo o conjunto da Cidade Proibida e seus telhados de tijolo;
no interior da Praça, o Mausoléu de Mao Dze Dong.
...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

804. Vêm aí os chineses… (3) – A geração Ikea

Prossegue Rampini:

A minha tradutora Zhang Yin passa lá (nos armazéns Ikea de Pequim) todos os fins de semana, com o marido, para decorarem a nova casa. A agente mobiliária Liliana Xu compra lá tudo, até mesmo as toalhas das mãos. Zhimin Ma, funcionária duma multinacional farmacêutica, gastou num armário o equivalente ao que o pai ganha em dois meses. É a geração Ikea de Pequim. Os membros da classe média (nota: mais de 200 milhões – Os USA têm 260 milhões de habitantes...), na faixa dos 30 anos de idade, decoram as respectivas casas apenas ao estilo informal mas sofisticado sueco, de design jovem, madeiras claras e linhas ultramodernas.


(…)
Dado o sucesso, os suecos inauguraram um segundo hipermercado do móvel na capital e possuem outros quatro em Xangai, Shenzhen, Guangzhou (Cantão) e mais dez em construção por toda a China.


(…)
A geração dos pais e das mães que viveram a revolução cultural dos anos 70 – os estudos interrompidos, o trabalho nos campos – ou as esperanças políticas dos anos 80 desfeitas na Praça Tian’anmem consola-se hoje em dia com a prosperidade destes filhos. Zhimin, com duas licenciaturas e fluência em três línguas, trabalha na empresa farmacêutica italiana Bracco e aufere um salário oito vezes superior ao do pai (nota: professor de liceu, residente a 4 horas de Pequim e com um salário mensal de 150€): é o bilhete de entrada no novo mundo do Ikea, das idas às compras aos supermercados Carrefour, Matro, Wal-Mart; dos restaurantes de comida rápida Pizza Hut, KFC, dos cafés Starbucks, dos automóveis Volkswagen (nota: o modelo mais baixo é o Passat) e Buick.

Todavia, mesmo em Pequim, este novo mundo não se encontra ao alcance de todos. O rendimento médio na capital, revelam as estatísticas oficiais, é de precisamente 2500 iuanes (250€) por mês.

(…)
Mas a média estatístuica não passa de uma abstracção, num país que, numa questão de meia dúzia de anos abriu no seu interior desigualdades mais profundas que as existentes na Índia.
(...)

Cabe agora aqui referir que, paredes meias com este trem de vida há em Pequim outro. Aquele que se serve do célebre comércio tipicamente chinês, aos preços chineses habituais. Mesmo o próprio Ikea criou uma secção de objectos ao preço único de 1€, para aqueles que não dispõem do poder de compra acima descrito. Também eles são contemplados e neles se está a incutir o espírito consumista, com vista ao futuro.

Onde antes existia apenas uma classe, a dos chineses comuns, todos por igual, de onde apenas se destacavam os dirigentes políticos, notam-se, agora claramente, três estratos sociais, a saber:


* as grandes fortunas, os multimilionários;
* a classe média – a tal que não existia e tem agora salários da ordem dos 250€ mensais;
* os chineses tradicionais, com os rendimentos abaixo deste nível.

O que não se encontra, nem na China do Norte (Pequim, Xi’an), nem na do Centro (Shanghai), nem na do Sul (Guilin) – é qualquer sinal de miséria como se topa por todo o lado na Índia, no Nepal, no México…


E não se encontra igualmente, o mínimo sinal de restrição de acesso seja a que local for. Impressionante!

Voltarei.