Os portugueses têm de salvar-se de si próprios, para salvarem Portugal

quarta-feira, 16 de julho de 2008

1611. Bancos, banquinhos e banquetas




Como os leitores portugueses sabem e os de outras nacionalidades vão ficar a saber também, anda agora por aí uma polémica quanto à questão dos arrendondamentos nos empréstimos bancários concedidos para, designadamente, aquisição de casa, que os bancos (não confundir com bandos) portugueses fazem há anos, sempre a seu favor, como se compreende, aliás. Não?!?!

Tais arrendondamentos não terão sido autorizados por qualquer lei vigente, moritura ou nascitura.

Conluíu-se até que os lucros assim obtidos - nem me atrevo a afirmar se legítima se ilegitimamente, porque "eles" têm dinheiro que se farta para me processarem durante milhentos anos nos velocíssimos tribunais portugueses e eu não tenho assim tanto, nem uma ínfima parte, sequer, para que, nos mesmos tribunais, me possa defender eficazmente - são da ordem dos milhares de milhões de euros. Isto, entre 1995 e 2006.

Bem, o problema está a ser discutido por eles - que nós, embora lesados, não somos chamados a votar (é isto a actual democracia portuguesa, que já o foi apenas formal e, hoje em dia, nem isso...) - e, se houver vergonha neste rectângulo que não faz jus ao merecimento actual (porque está de pé, quando, para ser condizente com a realidade, deveria estar deitado ou de gatas, de preferência de traseiro bem alçado...) cada lesado irá ser ressarcido, consoante o seu prejuízo, entre um mínimo de 1.000 e um máximo de 5.000 €.

Para se avaliar bem da dimensão do escândalo, bastará que se pense na mais pequena daquelas quantias e se a multiplique por nunca menos de 4 a 5 milhões de contas bancárias.


Estou na expectativa. Com a esperança do cego, ou seja, a ver vamos...

* * *

Este assunto recordou-me um outro de que pessoalmente fui interveniente involuntário e fortemente lesado, sem direito a dar um chapadão em quem me veio aos bolsos com um descaramento inaudito. A história é bem ilustrativa...

Em 1996, mais precisamente em Outubro, comprámos casa nova, já que a velha era mesmo velha e com condições que já não satisfaziam o ego da família nem as reais necessidades do agregado, que era então avantajado e não apenas constituído por dois "velhotes" mais ou menos caturras, a Isabel e eu próprio, que já pouco ligam ao ego, seu ou alheio. Coisas boas que a idade transporta consigo.

Pois bem, ficámos a pagar o empréstimo por um período de 18 anos. Já lá vão 12. Não vou "dedar" o banco de que se trata, porque me parece que são todos iguais, louve-os Deus!

A determinada altura, mais precisamente em 2006, ou seja 10 anos após, fartos de pagar estupidamente uma prestação tão alta, que nos parecia exagerado manuseamento dos nossos bolsos - repare bem na força da expressão -, metemo-nos nos respectivos "pedibus" e, envergonhados por nos termos mostrado de tão lentinha compreensão, a medo, muito receosos mesmo, pois que nunca se sabe o que dali sai, abeirámo-nos da "caixa azul", a que dizem que temos direito, no tal banco e manifestámos a nossa insatisfação pela circunstância de estarmos a pagar uma prestação mensal verdadeiramente obscena, quando a poderíamos reduzir imenso, não somente porque o prazo podia ser alargado - a lei permitia-o - deixando de terminar aos 65 anos da Isabel, a mais nova, e podendo ir até aos 75 anos da mesma Isabelinha. E também havia a questão do
spread. Estava a ser-nos contabilizada uma taxa de 1,5%, quando muitos outros bancos andavam, relativamente aos novos empréstimos, pelos 0,3%.

A medo, como atrás referi, de boné na mão e cajado bem recolhido, a limpar as botas cardadas no tapete, para não conspurcar as alcatifas, lá entrámos e, "respeitosos, veneradores e obrigados", demos os "b'dias" e, perante o sinal de que, enfim, por uma vez era-nos, a título muito sem exemplo, concedida autorização para entrarmos e sentarmos os traseiros remendados - mas asseados, hom'essa! - e disséssemos ao que íamos.

Tremebundos, lá dissémos, com meia dúzia de engasgadelas pelo meio.


E ao que íamos nós, afinal? Bem, ao certo, ao certo, não sabíamos. Porque quem sabe dessas coisas são Vocemecêses, com licença de Vocemecê que está aqui presente. Ao certo, pois, não sabemos. Apenas sabemos que, de joelhos, se for permitido a gente ajoelhar-se, vimos pedir que nos baixem o montante da prestação mensal, que nos parece muito alto e pouco justificado. Claro que nos apressámos a pedir desculpa pelo nosso parecer... não fosse o mafarrico tecê-las!

E, para nossa estupidificante surpresa, logo nos foi respondido que, quanto ao prazo, alargava-se por mais três anos, o que era uma benesse tremenda, dado que, assim, não terminaria apos 65 anos de idade da Isabel, mas sim aos 68. O facto de a lei prever que se pudesse alargar até aos 75 anos, era coisa a que não se devia dar grande importância. Era mesmo bom não dar, pois que nunca se sabe...

Claro que não demos!!! Então a gente é lá gajos para ir estragar uma conversita que começara tão auspiciosamente, só por uma questão de meia dúzia de "tustes"? "Semos" somíticos, ó quê? Não sei se estão a ver a coisa...


Portanto, não se fala mais nisso. Passemos ao assunto seguinte.

E o assunto seguinte era a questão do malfadado spread. Ok., ok., aqui também se dá um jeito. Vocês estão a pagar 1,5%, não é? Então a gente passa isso para 0,75% - tiramos, portanto, 50% - e não se fala mais nisso.

Confesso que, com a surpresa, o cajado me saltou da mão, indo estatelar-se no chão de mármore com grande estrondo, o que assustou muito a nossa interlocutora mas muito mais a mim e à Isabel, que nos acagaçámos como o catano com o susto dela, porque, julgo que sabem, nestas ocasiões, não é nada aconselhável que quem está do outro lado da secretária se assuste, porque pode até não gostar...

Portanto, ssssshhhhhiiiiiuuuu, Isabel, ssssshhhhhiiiiiuuuu, Alexandre. Tenham maneiras. E, claro, fizemos mesmo o tal ssssshhhhhiiiiiuuuu o mais silenciosamente que nos foi possível.

E o sacana do cajado já não foi levantado do mármore, para ali ficando abandonado à sua sorte. O sacripanta, hein?! Saltar assim da mão do pobre utente, sem pedir autorização nem nada, como se estivesse vivo e refilão, deixando o utente em tal aflição, que até lhe podia ter dado um "treque"!...


Mas onde ia eu?

Ah!, Sim... A divindade passou-nos, pois, o spread de 1,5% para 0,75%. E não se fala mais nisso! Pronto, não se fala mesmo mais nisso...

Mas o raio da Isabel, que nestas coisas de economia doméstica é refilona como o rai's qu'a partissem, já ia para abrir a boca, quando cá eu, rapidamente e aproveitando a circustância de a divindade ter voltada a cabeça para o outro lado, consultando o terminal do sistema informático, para ver se não teria, também ela, metido o pé na argola, logo lha tapei com a mão, impedindo, deste modo, que alguma tragédia se abatesse sobre as nossas cabeças.

Eu sei que a Isabel tinha razão e ia pugnar por uma maior e bem justificada baixa, pois que 0,75% continuava a ser mais do que o dobro do que grande parte dos bancos já praticava, ou seja 0,3%. Mas, perante a possível e previsível indisposição divina, achei melhor que recolhêssemos ao ninho, como passarinhos bem comportados e respeitadores da autoridade e não como passarucos mal-educados, que não respeitam nada nem ninguém, nem mesmo quem magnanimemente os protege de tantas intempéries. Sim, porque, contrariando bocas foleiras que por aí circulam, não é verdade que os bancos emprestem um guarda-chuva quando o dia está radioso e no-lo venham pedir devolvido quando começa a chover. Isso, meus senhores, são calúnias e aleivosias.


Assim sendo, nada mais havendo a falar, pelo que nos deu a entender a divindade, olhando para nós com alguma notória impaciência, pedimos licença para tirarmos os respectivos cus impróprios para tão esplêndidos assentos, e, obtida a permissão, lá nos levantámos e nos fomos despedindo num total de umas cinquenta e três vezes, com outras tantas vénias, enquanto nos retirávamos às arrecuas, em direcção da porta. Por acaso, não sei como é que a Isabel fez, mas, mesmo de costas e curvada para a frente, lá conseguiu acertar na porta.

Já eu não tive tanta sorte nem tanta destreza. Recuando muito a medo e com a preocupação das mesuras, inadvertidamente fui chocar o traseiro, com uma linda jarra que estava sobre uma mesa, decorativamente postada...


Nem queiram saber qual não foi a minha aflição!

Ao pressentir - mais do que a ver, porque estava ainda às arrecuas - que a jarra se ia despencar do tampo da mesa e saltar em direcção ao marmóreo chão, onde se desfaria em mil pedaços - triste e infeliz de mim!!! - tive, nesse momento o único lampejo de raciocínio rápido de toda a sessão, e, sem hesitar, atirei-me para o mármore, no local em que pressenti que a jarra iria cair.

Fui bem sucedido!!! A jarra salvou-se!

Era o que interessava. Salvou-se, não na minha mão, porque não a consegui agarrar, mas, tendo batido no meu corpo, acabou por chegar ao chão em segunda queda, esta muito mais suave, não só por ter sido por mim amortecida, como por, com o desvio sofrido, ter tido à sua espera uma bem acolchoada alcatifa.

E porque não a apanhei eu, depois de esforço tão inaudito? Porque, ao cair, no esforço para agarrar a jarra, bati com a omoplata direita na esquina de um banco que ali se encontrava, o que teve como resultado tê-la fracturado em dois sítios diferentes. Também, por força da queda, desloquei o ombro direito e, tendo batido forte com o peito no chão, igualmente uma costela flutuante "foi para o maneta".

Mas isso não interessa!

O que realmente interessa é que a jarra se salvou, bem como a disposição de ânimo da divina majestade. E, assim também, os ganhos que dali trazíamos.


Levantei-me, pois, pressuroso e, esquecendo as dores das fracturas e do deslocamento, mais a da costela que abalara para o maneta, corri pelo corredor fora, ganindo baixinho, com tudo isso me esquecendo de trazer o cajado jacente no chão que, por sorte, foi visto pela divina criatura.

Amavelmente chegou à janela e, gritando-me que não me esquecesse dele, atirou-mo, com o que me provocou mais uma fractura, esta craniana, com fortíssima concussão, de que estou ainda a tentar recuperar, como bem se nota, pelo desconchavo que é esta narrativa.


Chegados a casa, pudémos, enfim, descansar um pouco, passando de respiração galopante a ofegante e, 4 horas, 6 copos de água, 47 "valdisperts", 17 "lorenins" e uma caixa cheia de "prozacs" mais tarde, a normal.

Vimos, então, que as benesses obtidas não sendo embora grande coisa, correspondiam a um substancial ganho. E nem sequer quisemos apurar ao certo quanto recuperávamos relativamente aos generosos 3 anos de alargamento do prazo, quando poderiam e deveriam ter sido 13. Magnânimos, demos isso de barato.

Fizemos, no entanto, outras contas.

E, por elas, chegámos à conclusão de que só na diferença do montante do spread, ficámos a pagar menos 150€ mensais do que anteriormente.

E, curiosos dum raio, fomos mais longe e apurámos o montante que, em 10 anos, teríamos pago indevidamente, quando o que, com justiça, deveríamos ter pago era outro montante bem diverso. Não querendo ser injustos para quem para nós o é, resolvemos partir a coisa ao meio, ou seja, não fizemos os cálculos pela diferença maior, mas pela média baixa. E o resultado que nos deu foi que, em 10 anos, pagámos mais cerca de 10.000€ do que deveríamos ter pago. Isto, meus amigos, em 10 anos e num empréstimo total (na moeda actual) de menos de 100.000€.


Vale a pena dizer mais alguma coisa?

Sim, vale: apenas que o logótipo que embeleza este post é o da Caixa Geral de Depósitos, a tal que diz Scolari ser "Banco, banco é Caixa!", e não outro, pela simples razão de que era o mais disponível, de momento. Mas a regra é geral. Nada de criar ilusões.

Ah! Esquecia-me de um pormenor interessante e esclarecedor relativo à epopeia que acima narrei: é que a Isabel quer recarregar a argumentação e voltar ao ataque; tenho conseguido evitar tal temeridade, fingindo-me ainda muito combalido, em resultado das sequelas da aventura. Não sei quanto tempo conseguirei segurá-la com tais enganos, mas acho que é o mais avisado. Ignoro é qual vai ser a reacção dela, quando isto ler. E temo-a. Muito.
...

10 comentários:

Isabel Magalhães disse...

Ruben;

Ainda estou a digerir o post...

Três vivas à Isabel. Quem cala consente...

Abraço a dividir com ela. ;)

I.

Eduardo P.L. disse...

Assunto espinhoso!No mundo todo!Infelizmente!

Ruvasa disse...

Espectacular Amigo

Mas acredite que pode e novo dividir o juro por 2.

Vá ao ..., por exemplo...

Abraço e parabéns

Tira Nódoas

Ruvasa disse...

Viva, Isabel!

Pois, mas por causa de não gostar de ser aldrabada, estivemos à beira de não sair de Lhasa... Pois... Pois...

À saída, no aeroporto, havia que pagar a taxa de saída.

Como, no ano anterior, na Argentina, já havíamos tido problemas com isso, pagámos com dinheiro deles. Então não é que a menina cobradora foi aos arames?

À viva força recusou-se a aceitar dinheiro do próprio país e exigiu dólares. Nem euros aceitava, porque dizia que não era dinheiro.

Ainda não querendo acreditar no que ouvia, brinquei com ela dizendo que os euros eram muito mais dinheiro do que os dólares.

Nada feito, os dólares é que são bons e mais nada. E dali não saía. E vá de atirar com o dinheiro deles para cima do balcão, dizendo que não, não e não!

Aí, a Isabel chateou-se a sério. Pegou no dinheirame, voltou a pôr em cima do balcão, com força, e disse-lhe que sim, sim, e sim!!! Não há cá "renhaunhaus" nem meio-"renhaunhaus"!

Pegaram-se (e eu fiquei atónito com a Isabel, que é uma pessoa calma, ao contrário de mim) e a coisa chegou a tal ponto que eu - há quem diga cobardemente, mas eu prefiro dizer estrategicamente...) me afastei pensando na melhor forma de fazer chegar uns cigarritos à Isabel (que não fuma...).

Até que veio a chefe da outra e, depois de muita dialéctica - os comunistas e aparentados - para mais, orientais -, como se sabe, dão po que não se deve dar, a menos que se goste e até oito tostões por uma dialéctica bem dialecticada) lá aceitou aquilo.

Passada a tormenta, cheio de coragem regressada, abeirei-me da Zabelinha e perguntei-lhe porque tanto se enfurecera, quando o certo é que é uma pessoa tão calma. Respondeu-me que embirra solenemente quando a tentam enganar e ela descobre a tempo... Que se há-de fazer?...

Agora, imagine o que não poderia acontecer se, no banquinho ou banqueta ou lá o que aquilo é, os ânimos azedassem?... Chi... nem quero pensar...

[]

Ruben

Ruvasa disse...

Viva, Eduardo!

Ok, mas tenho cá a desconfiança de que em Portugal está a começar a abusar-se de uma forma jamais vista. Por favor e para vosso próprio bem, não deixem os banqueiros - e até os bancários - brasileiros vir até cá. É que eles aprendem depressa... Quem avisa...

Abraço

Ruben

Ruvasa disse...

Viva, Tira Nódoas!

Obrigado pelo conselho.

Mas...

Olhe que não sei se irei... não sei.

Cheguei ao ponto de entender que o melhor é fazer de conta que não existimos, para ver se eles nos esquecem.

Safa!

Abraço

Ruben

Isabel Magalhães disse...

Ruben;

Eu também sou calma, mas teria tido a mesma atitude da 'Zabelinha'... ;)
É que não suporto mesmo que me aldrabem...

Abraço

I.

Ruvasa disse...

Viva, Isabel!

Pois é... pois é..., mas é preciso ter muito cuidadinho. Poça! quando vejo que o adversário tem a faca e o queijo na mão não armo ao pingarelho, pois atão!...

Abraço

Ruben

Ana disse...

O que eu me diverti a ler este texto!
Gosto muito de uma boa gargalhada.
Grande mulher deve ser a Isabel.
Parabéns.
Pela prosa e ...principalmente por Ela, já se vê:))

Muito obrigada por ter ido ao meu cantinho.
Espero que continuemos a trocar comentários.

Abraço

Ruvasa disse...

Viva, Ana!

Nada a agradecer. Pelo contrário, talvez o devesse fazer eu, pois que gostei do que lá vi.

A Isabel é tramada! Calma, é capaz de aguentar tudo mas, quando lhe chega o vinagrete ao nariz... é como cão de fila (salvo seja!). Não grita, nem arma escândalo. Mas dali não sai!

Claro que vamos continuar.

Abraço

Ruben