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Podia ficar-me por aqui. No entanto, é bom que continuemos a chamar os bois pelos nomes.
Dias atrás, em entrevista de corredor, Francisco Pinto Balsemão, referindo-se às estações de TV portuguesas, portanto à dele também, certamente, afirmava mais ou menos isto:
- As nossas TVs estão bem, excepto no que se refere ao noticiário internacional, que dão pouco.
Descontando a afirmação (que seria surpreendente partindo de Francisco Pinto Balsemão, jornalista, mas que já não surpreende tanto, partindo de Francisco Pinto Balsemão, empresário e dono da Sic) de que tudo está bem com as TVs portuguesas, porque, pelo contrário, tudo está mal, com programas de uma pobreza franciscana, sem conteúdo que se veja e de uma assombrosa indigência mental, concordo com Balsemão quando diz que elas, as TVs, dão pouco noticiário sobre o que se passa no mundo.
E vou mais longe. Não dão pouco. Dão... nada. É, na verdade, espantoso como conseguimos ter os maiores noticiários do mundo, em termos de duração, e, ainda assim, não consigamos saber o mínimo dos mínimos do que se passa no planeta.
Se quero saber o que vai lá por fora (na tal aldeia global que o é para todos, menos para as TVs portuguesas), vejo a CNN, a BBC, a TVE ou até mesmo a Al-Jazeera, leio os jornais estrangeiros online ou navego pelos blogs. Através das TVs portuguesas é que não vale a pena. É um verdadeiro deserto. De ideias, de competências, de tudo, afinal.
Verdadeira mentalidade aldeã (closed mind, sim) tem a nomenklatura portuguesa ao nível televisivo!
E o que é curioso é que, noutros tempos, quando para se ser jornalista nem era preciso ter curso superior, havia mais espírito aberto para o exterior. Hoje em dia é o que se vê. Chauvinismo estúpido. E tanto mais estúpido quanto é certo que assenta em nada. Nada mesmo.
Àquela surpreendente frase de Balsemão – e surpreendente porque está nas suas mãos “dar a volta ao texto” já que tem o poder e foi precisamente a TV dele que entrou por esse campo, muito embora até já tenha sido ultrapassada – juntou-se ontem uma outra de um amigo meu, setubalense open mind, preocupado com a sua terra, mas não apenas com ela, que se lamentava para mim pelo facto de “os meios-audiovisuais não tirarem partido da nossa história tão rica e bela”. Isto, no seguimento e a propósito de dois posts que publiquei sob o título genérico “Aldeia global portuguesa”, um dedicado à Ilha de Tristan da Cunha e o outro a Punta Arenas.
O melhor é enchermo-nos de paciência e - para não estragarmos os nossos dias, assim que começarem os chamados noticiários televisivos portugueses - corrermos a mudar de estação ou irmos para a Net, em busca de noticiários que não agridam qualquer inteligência mediana.
Quanto ao aproveitamento das virtualidades da diáspora portuguesa, não há que esperar seja o que for cá dentro. Tirando os programas de José Hermano Saraiva, cá pelo burgo, que muita gente dita erudita contesta mas que não se vê que algo faça de melhor, nem sequer de parecido, e alguns timoratos e mal amanhados afloramentos, aqui e ali, como foram os do “bloquista” Miguel Portas, aqui há uns anos, a desertificação mantém-se.
No mais? Viver um dia a seguir a outro, esperando que a crise passe…
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