Os portugueses têm de salvar-se de si próprios, para salvarem Portugal

domingo, 29 de junho de 2008

1578. Aldeia Global Portuguesa (9) – Limasawa - Filipinas

Foi a 16 de Março de 1521, que Fernão de Magalhães, na sua circum-navegação – afinal a célebre viagem pioneira que transformou o mundo, dissipando todas as dúvidas quanto à esfericidade da Terra, e, mais, que criou o conceito de “aldeia global”, que actuais experts, parece quererem agora reivindicar… - chegou a Limasawa, pequena ilha situada na ponta sul da grande Ilha de Leyte.


A empresa de Magalhães, ao serviço de Carlos V, de Espanha, destinava-se a tentar chegar às Ilhas Molucas e às suas especiarias, por vias que evitassem encontros fortemente indesejados com o poderio das esquadras portuguesas no Índico.


Magalhães foi, assim, o primeiro europeu a chegar ao território que hoje constitui o país chamado Filipinas, com a capital em Manila. Seguidamente, chegou à fala com o rei de Cebu, outra das grandes ilhas da região, situada a Norte de Mindanao e a Sudeste de Luzón.


O rei de Cebu, por influência dos missionários que acompanhavam Magalhães, converteu-se ao Catolicismo.


Prevendo excelentes possibilidades de ali encontrar o aliado ideal para Carlos V, de Espanha (talvez por ainda não se ter apercebido de que a região já se encontrava adentro dos limites da “jurisdição” portuguesa, decorrente da partilha do mundo acordada em Tordesilhas, em 7 de Junho de 1494), Magalhães resolveu apoiar o rei local na sua disputa, pelo domínio da região, com Lapu-Lapu, chefe tribal da pequena ilha de Mactán, situada frente à costa sudoeste da grande Ilha de Cebu.


No decurso de tal disputa armada, em 27 de Abril de 1521, deu-se a batalha de Mactán.


Possivelmente atraído a uma armadilha, Magalhães desembarcou com 50 homens da sua tripulação para combater Lapu-Lapu, que o surpreendeu com uma força calculada entre 2.000 e 3.000 homens. (1)


Foi, como facilmente se imagina, um desastre total. E ao navegador português somente restou, como ponto de honra da sua integridade como líder, fazer regressar às naus, a salvo, o maior número dos seus homens que lhe foi possível, enquanto ele próprio se quedava na praia a combater os inimigos, até cair trespassado pelas lanças dos aborígenes.


Ficou, deste modo, a expedição sem comandante, que acabou por ser substituído pelo basco Sebastián Elcano, que, curiosamente, quando da passagem pelo Estreito de Magalhães, a sul da Patagónia argentina, tudo fez para que a expedição desistisse e regressasse a Sevilha, tendo sido necessária muita firmeza por parte de Magalhães para que a empresa prosseguisse.



Deste modo, a nau Victória, única que resistiu a toda a longuíssima viagem, arribou a Sanlúcar de Barrameda, província de Cádiz, porto de partida para a aventura, por volta de 8 de Setembro de 1522, com a missão cumprida.


Haviam partido, em 20 de Setembro de 1519, duzentos sessenta e cinco homens, em cinco naus; regressaram, três anos mais tarde, apenas dezoito, dos quais dois marinheiros portugueses, na única nau que restou, a Victória. Em 1525, chegaram mais quatro membros da tripulação inicial da nau Trinidad, pelo que, ao todo, se perderam 243 vidas na epopeia.


Precisamente cinquenta anos após a chegada de Magalhães, em 1571, o território que hoje se chama Filipinas, designação que lhe foi atribuída pelo então monarca de Espanha, Filipe II, foi colonizado pelos espanhóis, que fixaram a capital em Manila, que fundaram.


O domínio espanhol manteve-se por cerca de três séculos.


Curiosamente, porém, a tão longínqua presença portuguesa ainda se nota em certos costumes tradicionais e em traços fisionómicos, como igualmente na terminologia da língua da região.



Click na foto e nas imagens, para ampliar.
A foto mostra o monumento erguido em memória de Lapu-Lapu,
na Ilha de Mactán, em cuja praia faleceu Magalhães.

(1) Adenda de 8 Agosto 2008

O historiador Rolando Laguarda Trías, citado por Gonçalo Cadilhe no livro "Nos Passos de Magalhães", 2ª edição, Junho 2009, editado pela Oficina do Livro, sugere a teoria de que, mais do que um desastre, Mactán foi um suicídio premeditado de Magalhães.

E em que baseia esta absurda teoria, da qual discordo profundamente? Pois bem, que Magalhães se sentia humilhado e, consequentemente, desonrado, por, contrariamente ao que pensara, as Molucas - que hoje integram as mais de três mil ilhas do arquipélago indonésio, sensivelmente a nodeste de Timor-Leste - encontravam-se dentro dos limites da metade portuguesa da divisão do mundo acordada em Tordesilhas e não na espanhola. E, com tal desonra, ser-lhe-ia "impossível" apresentar-se perante Carlos V, seu patrocinador.

Se bem que, a um primeiro relance, a teoria possa apresentar-se com alguma verosimilhança, uma análise mais cuidada das circunstâncias logo a afastada, fortalecendo a ideia de que a História é passível de interpretações as mais diversas. Umas mais credíveis do que outras, evidentemente. Por mim, não adiro a esta. Porquê?

Muito embora ao tempo estas questões de honra se saldassem frequentemente por decisões semelhantes, o que "desculpará" Laguarda Trías, do que se sabe do carácter de Magalhães - e há inúmeros exemplos na sua vida - não era homem de se deixar abater por um qualquer infortúnio. E menos ainda - o que me parece uma afronta ao navegador - que tal "infortúnio" o levasse, consciente e criminosamente, a conduzir-se e, principalmente, a conduzir dezenas de homens confiados ao seu zelo e que o acompanhavam há já dois anos, por tormentos indescritíveis, que, é sabido, criam solidariedades muito fortes, para uma tal mortandade.

Ora, que "infortúnio" seria esse que, na estranha teoria de Trías, poderia ter levado Magalhães a tão tresloucado acto? Vejamos se haveria razão para tal.

Pois bem, o "infortúnio" teria consistido num erro de cálculo de 5º de longitude. Dito de outra forma: antes de sair de Sevilha e de Sanlúcar de Barrameda, em meados do séc. XVI (não hoje), Magalhães imaginava que as Molucas estariam a leste do anti-meridiano de Tordesilhas, situado a 133º a leste de Greenwich, potanto na metade espanhola do mundo, quando a verdade é que estavam no meridiano 126º - que então, no local, calcularam ser o 128º. Logo e como disse atrás, um erro de cálculo de 5º, ou seja, de um terço de um meridiano terrestre, e feito à distância, no primeiro cartel do séc XVI, insisto!

Há mais, contudo:

Mesmo que esse erro fosse razão suficiente para que o comandante de uma esquadra daquela dimensão, que iria terminar a primeira circum-navegação (não esqueçamos que Magalhães não terminou pessoalmente essa epopeia, mas, ao chegar às Filipinas pelo Leste completou tal circum-navegação, pois que já lá tinha estado, anos antes, vindo de Oeste, ou seja, da Índia), cometesse, e obrigasse a cometer, tão tresloucado e irresponsável suicídio colectivo, convém não esquecer que a honra do fidalgo estava mais do que garantida com a empresa que levava a cabo e que o imortalizou como navegador e explorador de territórios de gabarito ímpar.

Ora, Magalhães tinha instrução suficiente e capacidade de raciocínio e de análise mais do que bastante para se aperceber disso mesmo. Como tal, até por uma questão de pequena contribuição para a limpeza da honra do mais importante navegador de todos os tempos, sugiro que se esqueça tal abstrusidade.

Se fosse historiador, coibia-me um pouco, porque, enfim, "noblèsse oblige", e, assim, não poderia escusar-me a observar um certo grau de solidariedade entre oficiais do mesmo ofício. Felizmente, porém, não o sou. Limito-me a analisar os factos que a História e as suas interpretações diversas trouxeram até mim. Não me sinto, pois, travado de modo
a não afirmar que tudo isto me leva a concluir que tão abstrusa teoria - baseada em pressupostos quase infantis, quiçá de mera propaganda política - que tantas vezes nos surpreende com atitudes de quem ainda não passou da meninice - seria bem caso para se desejar que Rolando Laguarda Trías "fosse a Barrameda" e de lá nunca mais saísse... pelo menos até ganhar alguma consistência na interpretação de factos históricos, porque, ele sim, terá sido acometido de verdadeiro "descalabro moral", não o que afirma ter sido o de Magalhães.

(Os factos e considerações a que faço referência estão consignados no livro de Gonçalo Cadilhe que atrás mencionei, o qual, no entanto, se limitou a transcrevê-los, sem os comentar, o que me pareceu não repor aquilo que parece verdade indesmentível, pelo que me julguiei na obrigação de sair em defesa de Magalhães, a despeito de o navegador dispor, como defesa maior, a sua vida e o exemplo que dela se pode colher).

...

8 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Ótima e completa postagem sobre o assunto. Grandes historiadores estes meus amigos Portugueses!

Forte abraço e bom final de Domingo.

Ruvasa disse...

Viva, Eduardo!

Obrigado pelo cumprimento.

É a 9ª postagem de uma série - Aldeia Global Portuguesa - que está longe de terminar. Para todas, tenho chamada especial na parte final da coluna da direita.

Abraço e continuação de bom domingo por aí.

Ruben

Isabel Magalhães disse...

Amigo Ruben;

A FAMÍLIA MAGALHÃES agradece.

;)

[]

I.

Ruvasa disse...

Viva, Isabel!

Eu já era muito chegado a tudo o que fosse magalhânico - então às famílias!... - mas, desde que em 2004, estive em Punta Arenas e passeei pelo Estreito do dito Senhor e pelo Canal Beagle, tornei-me furioso "magallanico".

Irreversivelmente.

Depois, outros magalhânicos vieram ajudar a esse sentimento.

;-)

[[]]

Ruben

Isabel Magalhães disse...

Ruben;

Gosto desse seu humor e agradeço o sentimento. :)

Foi um recurso para criar um e-mail porque as outras opções não estavam disponíveis... ;)

Já agora, não sei se conhece:

OS MAGALHÃES
Sete Séculos de Aventura
de Manuel Villas-Boas.

Um [] grande

I. Magelanus

Ruvasa disse...

Viva, Isabel Magelanus!

Mas olhe que, sem dúvida, foi um excelente recurso e aparecido em boa hora.

Não, não conheço a obra que cita. Onde se pode arranjar?

Já trouxe à colação F. Magalhães por duas vezes, ou seja, quando abordei o tema Punta Arenas e o Estreito e, agora de novo, com as Filipinas.

Magalhães, pela enorme importância que teve na História Universal, nerece mais. Talvez daqui por uns tempos, volte a trazê-lo à liça, para referir mais em pormenor - se bem que não exaustivamente, já que não é esse o objectivo dos posts, que apenas pretendem dar um breve conhecimento a quem não conhece mesmo e relembrar quem já conhece, feitos dos portugueses por essa aldeia global que criaram - a história dessa circum-navegação.

Antes disso, porém, tenciono, dentro do mesmo tema, abordar Taiwan (a célebre Formosa), a Pedra de Dighton e outros.

Abraço

Ruben

Deusdedith Carmo disse...

Caro Ruben,
Gostei imensamente de seu blog e sobretudop seu amor por sua pátria, ao divulgar os feitos do povo português. Eu tenho dito que, enquanto a Europa toda se escondia debaixo das batinas da Igreja, Portugal se lançava ao mar em busca de novas terras e alimentos para matar a fome dos Europeus famintos e medrosos. Quisera saber eu manejar a rede (net) como você faz. Parabéns. El Carmo. Peço uma visita a meus blogs qaue podem ser vistos por busca a El Carmo.

Ruvasa disse...

Viva, Deusdedith Carmo!

Obrigado pela visita e mais ainda pelo amável comentário.

A série tem estado parada, tal como o blog, mas ainda não findou.

Vou agora fazer-lhe uma visita.

Abraço

Ruben