Os portugueses têm de salvar-se de si próprios, para salvarem Portugal

sábado, 9 de agosto de 2008

1710. Gerir o stress

Por vezes, quando se tem um mau dia há que descarregar em alguém. Nunca o faça, porém, em alguém seu conhecido. Descarregue, sim, num desconhecido.

Aqui há tempos, estava sentado à minha secretária, quando me lembrei de que tinha de fazer um telefonema. Encontrei o número e marquei-o. Respondeu um homem, que disse:

-
Está?

Educadamente, respondi-lhe:


-
Estou, sim! Daqui fala o Luís Alves. Posso falar com a Sra. Ana Marques, por favor?

O meu interlocutor ficou transtornado e gritou-me aos ouvidos:

-
Vê lá se arranjas a porcaria do número certo, ó cretino! - e desligou o telefone.

Nem queria acreditar que alguém pudesse ser tão pouco educado por causa de uma coisa destas.

Quando consegui ligar à Ana, reparei que antes tinha acidentalmente trocado os dois últimos dígitos, razão por que fora dar ao malcriado.

Decidi voltar a ligar para o número errado e, quando o mesmo tipo atendeu, gritei-lhe:

-
És um grande mariconço pé de salsa, pá! - e desliguei.

Depois, anotei o número dele com a anotação "
mariconço" e guardei-o.

A partir daí, sempre que tinha umas contas chatas para pagar ou um dia mesmo mau, para aliviar o stress telefonava-lhe e gritava:

-
Olá mariconço, 'tás porreiro, pá?

Isso animava-me logo.

Quando surgiu a identificação das chamadas, pensei que o meu terapêutico telefonema para o mariconço iria acabar. Por isso, liguei-lhe:

-
Boa tarde. Daqui fala da Portugal Telecom. Estamos a ligar-lhe para saber se conhece o nosso serviço de identificação de chamadas...

Ele respondeu:

-
NÃO!!! - e bateu com o telefone.

Liguei novamente e desabafei:

-
Não conheces porque és um grande e desavergonhado mariconço!

Um dia, estando no parque do Centro Comercial aguardando que vagasse um lugar no estacionamento, veio um um tipo num BMW que me cortou o caminho e estacionou no lugar de que eu tinha estado à espera.

Dei um toque de buzina e disse-lhe que estava ali primeiro, aguardando o lugar, mas ele olhou de viés e fingiu ignorar-me.

Fiquei com a tarde completamente estragada. Ora o patife!... Foi então que reparei que, colado no vidro traseiro do carro dele, havia um letreiro de "
Vende-se". Tomei nota do número de telefone que lá estava.

Uns dias mais tarde, depois de ligar ao primeiro
mariconço e não tendo ficado suficientemente aliviado, resolvi que o melhor era telefonar também ao mariconço do BMW.

Perguntei-lhe:

- É o senhor que tem um BMW preto à venda?

- Sim... - disse ele.

- E onde é que o posso ver?

- Em minha casa, aqui na Rua da Descobertas, nº 36. É uma casa amarela e o carro está estacionado mesmo em frente.

- E o senhor chama-se?

- Alberto Palma - disse ele, solícito.

- E a que horas está disponível para mostrar o carro?

- Estou em casa todos os dias depois das cinco.

- Ouça, Alberto, posso dizer-lhe uma coisa?

- Claro! Diga... diga!

- És um mariconço dum raio! - e desliguei o telefone.

De então para cá, sempre que me surgia um problema que me impacientava, dispunha de dois mariconços a quem telefonar, para desanuviar.

Tive, então, uma ideia verdadeiramente genial! Uma ideia que só podia ter sido gerada por uma mente brilhante. A minha, claro!

Telefonei ao mariconço nº 1.


- Está?

- Sim...

- Olá! Então, continuas o mariconço de sempre ou... pioraste? - e fiquei à espera da reacção, sem desligar.

- Ainda estás aí? - perguntou ele.

- Claro! Para onde é querias que fosse? - respondi.

- Ora... ora... Para a tua mãezinha... Vê lá mas é se deixas de me telefonar, ó camelo! - gritou.

- Eh! Eh! Impede-me... - gozei eu.

- Mas, afinal, quem és tu, ó sacripanta?

- Chamo-me Alberto Palma - esta foi mesmo genial... - Porquê, mariconço?

- Ah sim? E onde é que moras, posso saber?

- Claro que podes! Moro na Rua da Descobertas, nº 36. Olha, até te digo mais: tenho o meu BM preto mesmo em frente, ó mariconço sem vergonha nas ventas. Porquê?

- Eu já te digo porquê, Alberto! Vou já aí, seu idiota. É melhor começares a rezar - estava mesmo furioso.

- Xiii! Estou cheio de miúfas de ti... Vem cá, vem, que verás o que te acontece!... - e desliguei.

A seguir, liguei ao mariconço nº 2.

- Está? - atendeu

- Olalá, seu mariconço pé de salsa!

Gritou-me:

- Ai, se descubro quem tu és...

- Fazes o quê, hã? - perguntei em tom de gozo.

- Parto-te a tromba e deixo-te tão escavacado que nem a alma se te aproveita! - regougou ele

Provoquei-o um pouco mais:

- Ih! Ih! Gostaria de ver isso... Olha, mariconço, vou dar-te a oportunidade de mostrares que não és o mariconço que eu sei que és. Vou já aí a tua casa e veremos isso.

Desliguei e telefonei à Polícia, dizendo que morava na Rua da Descobertas, nº 36, e que ia agora mesmo para casa matar o meu namorado
gay. Depois liguei para as cadeias de TV e falei-lhes sobre a guerra de gangs que se estava a desenrolar nesse momento na Rua da Descobertas.

Peguei no meu carro e fui para a Rua da Descobertas. Cheguei a tempo de ver os dois parvalhões a matarem-se à pancada em frente de seis viaturas da polícia e uma multidão de repórteres de TV.

Sinto-me muito melhor. Se sinto!

A partir de um texto recebido por email,
de JMDP

...

4 comentários:

Isabel-F. disse...

por acaso já conhecia ... mas esta história é deliciosa ... olha a mim até me dá vontade de fazer o mesmo ...rsss....


adorei relê-la.


beijinhos e bom fim de semana

Ruvasa disse...

Viva, Isabel!

Também a conhecia, mas nunca a transcrevera para aqui. E fiz-lhe umas alterações, de modo a pô-la a português aceitável e, além disso, por decoro, substituí-lhe o termo que nela vinha pelo de "mariconço".

;-)

Beijinhos iguais e melhor fim de semana ainda, se possível, para ti

Ruben

Marco Valle disse...

Por acaso, não terá alguém por aí os contactos telefónicos do Socrates e do Cavaco? LOL

Ruvasa disse...

Viva, Marco!

Era nem aplicada, era...

Abraço

Ruben