Os portugueses têm de salvar-se de si próprios, para salvarem Portugal

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

805. A questão é saber…


... como é que alguém, que se insurge frontal e decididamente contra a aplicação da pena de morte, já não o faz contra o aborto e, muito pelo contrário, o aceita e até reclama.

Será que não haverá uma ponta de incoerência e mesmo hipocrisia numa destas atitudes? Ou se defende uma ou a outra; as duas, em simultâneo ou em alternância, consoante interesses escusos e em atitude pouco esclarecida, é que não pode ser.

Há valores que não é possível serem sujeitos ao capricho de conjunturas, por mais ululantes que se mostrem. Porque são valores perenes e incontornáveis, por inamovíveis.

O valor em causa nestas duas situações é um deles. É mesmo o mais importante de todos.

Pretender contrariar isto é oportunismo inadmissível e de abjurar de uma vez por todas. Sem eufemismos.

...
Ficamos entendidos, não?

14 comentários:

Ricardo disse...

Viva Ruvasa,

A grande confusão que surge nesta discussão é o conceito de "vida". Isso é pura filosofia e não é o que está em discussão.

A pergunta do referendo não é, em primeiro lugar, se somos a favor do aborto ou não. A pergunta fala em despenalização e nem sequer em descriminalização.

Eu sou contra a pena de morte e incapaz, pela forma como encaro a vida, de sugerir alguém a abortar. Mas, da mesma forma que defendo a eutanásia porque trata-se da minha própria vida e defendo que tenho o direito de a gerir como quero, divido-me em onde está a fronteira entre o direito que temos sobre o nosso corpo e o conceito de aparecimento da vida. A vida, e aqui é que entra a filosofia, não é fácil de definir. Uma planta é vida? Uma célula é vida? Um espermatezóide é vida? E matamos milhões por dia. A questão é se é na fecundação que aparece a vida humana e não quero entrar nesta questão mas parece-me óbvio que há distinções a fazer.

A "vida" é um conceito muito subjectivo e a "vida humana" também é. Como sabes um homem que respira mas não tem funções cerebrais está morto. É tudo muito relativo. A eutanásia, por outro lado, é o fim duma vida humana mas da nossa por decisão nossa. Novamente muito relativo. As 10 semanas surgem destes conceitos relativos. Uns defendem que sem dor não há vida, outros que sem pensamento não há vida e ainda outros que a vida começa na fecundação. Não vale a pena ir por este caminho.

A minha posição - não sei se vou votar ou tomar posição no boletim de voto - não está formada nem nunca vai estar porque o acto de abortar em si faz-me, confesso, muita confusão. Mas discordo de ti que isto possa ser visto sobre o prisma da "vida". No fundo usar um preservativo é estar a impedir vida e a pílula do dia seguinte parece-me que não é uma arma de assassinato. O que interessa perceber é qual é a melhor maneira de diminuir o número de abortos, de abortos clandestinos e se tem lógica condenar mulheres. E isso não tem qualquer contradição com a posição na pena de morte.

O que me inclina mais para o Sim (não é sim ao aborto) é porque, mesmo sendo incapaz de tomar essa decisão, não posso obrigar ninguém a ter a mesma perspectiva sobre o seu corpo (e perspectiva filosófica) que eu tenho do meu. É o mesmo que a eutanásia, ou seja, não defendo a obrigatoriedade mas também que ninguém me obrigue a não a praticar. E, mesmo que não vote ou vote nulo, não consigo votar Não porque é estar a defender que, mesmo não concordando que o façam, as mulheres não possam ter essa opção em nenhuma circunstância. E é óbvio que essa opção existe em cada esquina mas só nas condições que nós conhecemos e que são cruéis e humilhantes. E duvido que o acto, cruel e humilhante, seja feito de ânimo leve. É esse o caminho?

Quanto à pena de morte não te esqueças dum outro pormenor. Eu posso ser a favor que o Estado possa decidir sobre a vida alheia (sou contra) mas posso simplesmente achar que não tem utilidade social. Não podemos presumir que quem é contra a pena de morte seja pelas razões que apontas.

Enfim... é tudo muito relativo, não façamos disto uma questão de preto e branco. Percebo a tua posição - sinceramente - e mesmo a minha posição não é pacífica nem para mim porque o tema é por demais complexo mas não podemos reduzir as discussões a defensores da vida e os outros até porque a maioria das pessoas que aborta quer ter filhos ou já os teve. A pergunta do referendo não tem nada a ver com isto e é só à pergunta que temos que responder.

Abraço,

Sulista disse...

Concordo!

«não defendo a obrigatoriedade mas também que ninguém me obrigue a não a praticar. E, mesmo que não vote ou vote nulo, não consigo votar Não porque é estar a defender que, mesmo não concordando que o façam, as mulheres não possam ter essa opção em nenhuma circunstância.»


MAS, hoje em dia, já não há mulheres incriminadas porfazerem um aborto.

;-)

Ruvasa disse...

Viva, Ricardo!

Gosto de te ver por aqui, depois de tanto tempo... Mesmo se não estamos de acordo. Ou talvez por isso mesmo! ;-)

"No fundo usar um preservativo é estar a impedir vida", dizes.

Sim, é verdade. Mas uma coisa é impedir que se forme uma vida. A abstinência também é uma forma de impedir que se formem vidas.

Outra coisa bem diferente é liquidar vidas. O preservativo impede que o espermatozóide, chegue ao destino, o óvulo, e aí em união, dêem forma a uma nova vida.

São, pois, coisas muito diferentes.

Quanto à pena de morte, não presumo nada. Sei que sou absolutamente contra e entendo que,quem assim se diz, não pode querer numa situação uma coisa e na outra coisa diferente, quando, na verdade, o que está em causa, é precisamente o mesmo, enfeite-se a pílula como se enfeitar.

Nesta questão, sou absolutamente radical. Trata-se de valores absolutos. Como tal, não concebo o "não, mas..." ou mesmo o "não neste caso, mas sim naquele".

Quanto ao referendo, "é só à pergunta que temos que responder", dizes também.

Mas é isso mesmo, caro Ricardo. O problema está na resposta à pergunta. Porque dessa resposta é que tudo virá a decorrer. Não colhe dizer-se que não é o que está em discussão. Porque é realmente o que está em discussão. Periode.

Mais: só admito o aborto em duas situações, ambas de índole de saúde:

- malformação do feto;
- risco para a vida da mulher.

Ora, a actual lei já prevê também a questão da violação. E, nesta questão, eu já discordo de que esteja legalizada. Porque ninguém garante (o contrário, sim, quase se garante que acaba por acontecer) que a mulher não ultrapasse, com maior ou menor dificuldade, o trauma e se afeiçoe ao filho. Tantos casos haverá nessas circunstâncias!

Até porque, como é bem sabido, a vida seria impossível sem uma circunstância inerente ao ser humano, isto é, a capacidade de esquecer. A que há que aliar, como, "en passant", referi atrás, a afeição, o amor que qualquer mãe sempre nutre pelo filho, esteja ele munido das características que estiver, provenha ele de que circunstâncias provenha.

Abraço, Amigo.

Ruben

Ruvasa disse...

Viva, Maria João!

Mas, quanto a mim, elas já têm todas as opções a que legitimamente podiam aspirar.

Têm mesmo uma a mais, sob o meu ponto de vista, expresso na resposta anterior.

Para tudo há remédio, Mesmo para a mulher traumatizada por ter gerado um filho proveniente de uma violação (e vamos lá a ver que tipo de violação, porque o marido, no leito conjugal, também pode violar a mulher, não é assim?...).

Sim, para tudo há remédio. O remédio do esquecimento, o remédio da afeição da mulher pela criança, o remédio do amor da mãe pelo filho, tenha ele as características que tiver (as piores até), provenha ele de que circunstâncias provenha. Sim, para tudo isso há remédio.

Não há remédio é para o decurso de uma vida cortada cerce. Abruptamente. Aí, sim, não há remédio algum.

E estou até convicto de que não só não há remédio, como não haverá mais sossego de espírito para a mãe que rejeitou o filho, sem fortíssimas e impostergáveis razões de saúde, sua e dele.

Beijinho, Amiga.

Ruben

marco valle santos disse...

Havendo efectivamente este leve véu entre o que já é vida e o que ainda não é, a questão não se deve pôr dessa maneira.
Conhecendo a nossa sociedade e vendo como se tem desenvolvido desdo 25 de Abril podemos é chegar a outras conclusões. Como em tudo o resto, hoje Portugal é um país de desresponsabização, de desculpabilização, de desrespeito, de despautério, de desvalorização, de despreocupação, de desmazelo, de desgoverno e mais uma série de des...
Com este relaxamento da lei, o que vai acontecer será apenas a criação de mais um método anti-concepcional. Ou seja se tiver comixão não se preocupe é coçar à fartazana e sem precauções, se tiver azar, não se preocupe, a culpa não é sua o raio das calças é que não paravam de cair ...LOL é só rir este país.

Isabel Magalhães disse...

Ruben;

Subscrevo!

Gostei imenso de o ler sobre este assunto.

Eu VOTO NÃO em consciência. Pelo direito à VIDA!

Abraço.
I.

post scriptum - Apareça no www.oeiraslocal.blogspot.com porque o assunto tb está em discussão.

Ruvasa disse...

Viva, Marco!

Realmente, tens razão quando afirmas que o grande problema é, entre nós, a questão, principalmente, da responsabilização.

E causa-me muito desconforto que, de modo geral, 30 anos de democracia (ainda que meramente formal) não tenham chegado para criar, nos cidadãos em geral, um maior sentido das responsabilidades.

Gerais e individuais.

De que decorresse - fatalmente decorresse - o respeito devido pelo outro, o seu semelhante, seja ele qual for, principalmente o mais indefeso.

Abraço

Alexandre

Ruvasa disse...

Viva, Isabel!

Ainda bem que estamos de acordo.

Vou aparecer.

Abraço igual.

Ruben

carneiro disse...

Só hoje cá consegui chegar graças à preciosa ajuda da Sulista.

As maiores felicidades para a renovação.

O post diz tudo o que é relevante na discussão.

Ainda tentei ler os comentários, mas quando cheguei á parte de que "o conceito de vida é subjectivo", não avancei mais.

Claro que o conceito de vida é subjectivo. Sobretudo para o próprio.

Se até a Lili Caneças sabe que estar vivo é o contrário de estar morto, só falta mesmo fazer um desenho.

Ruvasa disse...

Viva, Amigo!

Ainda bem que deu com "isto". O novo blog, evidentemente! Nada de confusões...

Obrigado pelos votos e pelo cumprimento.

Quanto ao resto que diz, também engoli em seco, mas, como conheço (de troca de impressões na Blogosfera) o Ricardo e sei que é pessoa que sabe o que diz e bastante equilibrada, atribuí o dito a uma infelicidade momentânea, daquelas que todos nós temos de quando em vez.

A minha posição quanto ao assunto é a que exprimi e, por mais voltas que se dê, dela não consigo sair, ainda que tente. Por razões intelectuais, morais e éticas, que é quanto me basta para a sustentar.

E nem sequer consigo admitir tergiversações. Para falar mais claro e directo, direi apenas: o que é, é e a ser continuará, ainda que mais disfarçado e escondido do que veneziana atrás de máscara de carnaval (que são bem bonitas, aliás...).

Abraço e volte sempre. Pelo menos en quanto o Xiclista estiver nos "highlights"!... ;-)

Ruben

carneiro disse...

Amigo Ruben,

Conforme terá reparado o meu é algo rudimentar. Falta muito conhecimento técnico ao autor, que nunca tirou curso algum.

Vive um bocado virado para dentro, sem estabelecer (ainda) as conexões que a afinidade pessoal e, até, o mero interesse editorial justificariam.

Corro, por isso o risco de não retribuir na forma devida gentilezas blogosféricas, (ainda menos aquelas que não mereço). Se bem que calem na caixa dos apreços pessoais.

Mas um dia estarei em condições de me portar como um ser blogosférico civilizado. Até lá conto com a tolerância das pessoas bem intencionadas.

Ruvasa disse...

Viva, Carneiro!

Claro que conta. Disso não duvide.

Aliás, a forma é o que conta menos, como bem sabe...

Abraço

Ruben

Bom Garfo disse...

Aconselho a leitura deste texto. Está lá tudo.

Ruvasa disse...

Viva, Bom Garfo!

Obrigado pela dica. Já lá fui

Abraço

Ruben