Os portugueses têm de salvar-se de si próprios, para salvarem Portugal

sexta-feira, 13 de abril de 2007

983. A Páscoa da Cidadania


“Um erro. Os sistémicos ainda não perceberam bem o que lhes sucedeu nesta Páscoa da Cidadania. Reduzem tudo ao inimigo único - uma táctica clássica da Sociologia da Informação para aplicar aos adversários, mas que não deve ser usada para a análise. Se for usada para a análise só se repara na árvore e a miopia não deixa ver o resto da floresta.

Não vou fazer um desenho, que não tenho jeito, mas explicar os meios:
1. Internet
2. Blogues
3. Forum
4. E-mail
5. A caixa de ressonância dos media tradicionais

O controlo socrático dos media tradicionais, apertado como jamais se viu no Portugal pós-25 de Abril, era impossível de subir ao extremo de conter uma panela em ebulição dos meios modernos. E a panela rebentou.

Por isso, o problema não foi o blogue x ou y, é a rede. A rede permite a exuberância da cidadania, tanto tecnicamente como moralmente. Se o problema fosse de um meio só, o perigo tinha sido contido. Não era. Explodiu. Os cidadãos libertaram-se do jugo da intermediação e assumem a cidadania, a responsabilidade de intervir na polis, com a sua capacidade possível: a informação.
Nesta Páscoa da Cidadania o segredo foi a rede, a Net. Mas schiu, não contem a ninguém. Eles ainda pensam que o problema foi o "a" ou o "b"...

Nada será como era nos media tradicionais também porque não abrimos as portas apenas aos cidadãos conscientes da sua responsabilidade activa; nem nada será como estava na política velha e relha porque o controlo dos intermediários (os media) foi rebentado pelo fluxo do povo activo.
Como tentei explicar, deviam ter percebido do exemplo espanhol. Não aprenderam e continuaram a agir como sabiam: controlar os intermediários, os media - porque, pensavam que se controlassem, mesmo descaradamente se tivesse de ser (e está a ser...), os media, os cidadãos nada sabiam. No fim de contas, tratava-se da adaptação da máxima salazarista dos anos 30: "politicamente, só existe o que o povo sabe que existe"...

Porém, deviam ter aprendido com Espanha.
Esse paradigma clássico de fazer política estava obsoleto e foi destruído pela avalanche da procura (o cidadão-repórter), publicação, comentário, edição e difusão de informação em torrente contínua, rápida, funda e aguda. Os media foram apanhados na torrente e não puderam travar o fluxo. Não podendo parar, deixaram-se ir na onda - para não serem esmagados pela torrente popular. Hoje, há mais liberdade do que antes da nossa Páscoa, a Páscoa da Cidadania.

A democracia directa já chegou a Portugal. Só falta instituí-la.

Este é um texto notável, transcrito de um comentário gravado por António Balbino Caldeira, na madrugada de hoje, no seu blog Do Portugal Profundo, com referência ao post “António José Morais foi professor de Sócrates no Isel”, o que contraria afirmações daquele na RTP, poucas horas antes, segundo as quais não teria conhecido o referido professor, antes da sua própria chegada à UnI.

Não se abordará aqui, porém, a verdade ou inverdade de tal declaração do primeiro-ministro – que, no meio de tudo quanto se tem passado, já nem se classifica como mais do que mero pormenor – nem sequer o desmentido que efectivamente é o post, muito embora nele jamais se tenha expressamente dito disso se tratar.

Do que se cuida de saber, hic et nunc, é da questão de fundo do comentário de Caldeira, qual seja, a reviravolta no status quo da informação pública institucionalizada – também da desinformação –, mas igualmente no da sociedade portuguesa, no seu geral, que jamais será o mesmo após esta Páscoa da Cidadania, com vero sabor a Páscoa da Redenção.

E não será mais o mesmo, porque, desta vez, alertado para um conjunto de circunstâncias insuficientemente esclarecidas e contendo matizes de verdadeira anomalia, de que se tinha conhecimento há mais de dois anos, mas que se insistia em não divulgar – “pecadilho” inadmissível em sociedade democrática – um leque de cidadãos, mais alargado do que é normal em tais circunstâncias, liderado – sim, liderado pelo exemplo – por um homem que, embora isolado, serenamente jamais revelou temer as tremendas forças com que se defrontava, forçou a que órgãos institucionais da Comunicação Social se vissem na contingência de revelar o que já de há muito sabiam, mas calavam.

Constituiu todo o processo, até ao momento presente, um vigoroso pontapé no traseiro do conformismo lusitano – em muitos casos, talvez também do conúbio entre agentes de informação e forças de dominação da sociedade portuguesa pouco dadas à visibilidade – que despertou consciências, as quais, espera-se, jamais se deixarão adormecer de novo.

A isto se chama, com toda a propriedade, de democracia directa, a forma mais transparente, limpa e pura de democracia que se conhece. É ela obra de cidadãos para cidadãos, em nome do bem-estar e dignificação de toda uma sociedade humana. Democracia que, como dizia Abraham Lincoln, em Gettysburg, é o poder do povo, pelo povo e para o povo.

A Páscoa da Cidadania é, pois, um momento muito alto da nossa até agora muito débil e a cada dia mais fragilizada democracia, que assim recebe enorme contributo no sentido de se tornar entidade de corpo inteiro e não amputada ou que se ficou a meio do desenvolvimento que seria o natural e desejável.

É-se mesmo levado a crer que terá sido o mais alto de todos os momentos, uma vez que foi desencadeado por cidadão descomprometido, a que de imediato se associaram inúmeros outros cidadãos, igualmente descomprometidos relativamente a interesses que não sejam os da Comunidade que todos nós, Portugueses, constituímos, mas sinceramente desejando romper com um passado que não nos dignifica, em busca de um futuro de maioridade cívica.

E, com a força dessa união, foi possível vergar outros – que tinham o estrito dever de correcta e integralmente informar mas que a ele se furtavam – no sentido de não mais poderem manter-se inactivos, e, pelo contrário, sentirem-se pressionados – é o termo! – a agir, ainda que com patéticas e canhestras tentativas de surgirem como os “salva-pátrias”, liderantes de todo um processo que, afinal, apanharam no termo e porque a isso forçados.

E, com essa união, se constituiu força com tal determinação que nem a enorme panóplia de meios de que as forças contrárias dispunham conseguiu derrotar. Nem conseguirá, ainda que tente.

Diz Balbino Caldeira, a terminar, que “a democracia directa já chegou a Portugal. Só falta instituí-la”.

Na verdade, já chegou. E, estamos certos, veio para ficar. Porque os cidadãos foram despertados e convocados e, uma vez actuantes e constatado o resultado de um esforço conjunto de pequenas mas fortes vontades, jamais aceitarão menos do que o já conseguido.

Quanto à instituição da democracia directa, ela se imporá de tal forma que, tal como forçou a chegada, forçará certamente o resto.

A História desta Páscoa da Cidadania, de quem a inspirou e de quantos o seguiram ainda não foi contada nem teria que o ser, por falta de profundidade temporal.

Mas vai sê-lo. E os louros, ainda que não buscados, hão-de ser justamente atribuídos, caro António.

Pela Páscoa da Cidadania que ao País e seus cidadãos ofereceu, daqui lhe envio um abraço de amizade e companheirismo, que é, como não podia deixar de ser, igualmente um preito de homenagem que jamais poderia sequer pensar em sonegar-lhe.

...

13 comentários:

carneiro disse...

Notícia do Sol via sapo: o homem esteve inscrito 3 anos em direito mas não chegou a fazer qualquer exame. Pelos vistos também é Dr.

Quanto à Pascoa da Cidadania: concordo com a análise. Cada um de nós tem uma página de jornal onde escreve todos os dias.Finalmente o cidadão consegue emitir uma opinião sem que o interrompam. O intercambio pela rede faz o resto, mormente a circulação, o aperfeiçoamento, o contraditório da informação.

carneiro disse...

Notícia do Sol via sapo: o homem esteve inscrito 3 anos em direito mas não chegou a fazer qualquer exame. Pelos vistos também é Dr.

Quanto à Pascoa da Cidadania: concordo com a análise. Cada um de nós tem uma página de jornal onde escreve todos os dias.Finalmente o cidadão consegue emitir uma opinião sem que o interrompam. O intercambio pela rede faz o resto, mormente a circulação, o aperfeiçoamento, o contraditório da informação.

Isabel-F. disse...

"...
Diz Balbino Caldeira, a terminar, que “a democracia directa já chegou a Portugal. Só falta instituí-la”.


Na verdade, já chegou. E, estamos certos, veio para ficar. Porque os cidadãos foram despertados e convocados e, uma vez actuantes e constatado o resultado de um esforço conjunto de pequenas mas fortes vontades, jamais aceitarão menos do que o já conseguido.

..."

Tb acredito que sim.

Bjs e bom fim de semana

Ruvasa disse...

Viva, Carneiro!

Sim, já tinha conhecimento dessa notícia. Mas outras virão.

Pelo que diz no segundo parágrafo do seu texto e por tudo quanto tem acontecido, desde sempre que tenho sido um apaixonado pela Net. Há nela muita porcaria, é certo, mas nada há que a possa substituir.

Desde que ela existe, o Mundo tem vindo a mudar. De forma radical, em termos de democracia. E tanto que nós, em Portugal, dela sempre necessitámos.

Os militares norte-americanos, que criaram o sistema jamais terão pensado nas repercussões que ela iria ter um dia.

Abraço

Ruben

Ruvasa disse...

Viva, Isabel!

Sim, é imparável. O poder tem tendência a ser mais forte, porque mais controlado, mais isento, porque mais partilhado, mais anárquico, em certa medida, mas igualmente mais responsável e mais responsabilizado.

É ilusão de gente pequena supor que conseguirá continuar a calar a voz do cidadão comum.

Trata-se de uma luta difícil, porque a democracia directa será sempre "puxada" para a anarquia e indispensável se mostrará cabeça fria, discernimento e vontade de acertar. Mas a democracia directa é sempre melhor do que o simulacro de democracia em que temos vivido.

Beijinho

Ruben

José Vieira disse...

Oi Ruben;

Passei para te cumprimentar. Sobre o Socrates ter ou não ter, quero lá saber, quero, ou queria, era que ele governasse bem.

Mas foi mesmo só para te dar um abraço,

Ruvasa disse...

Viva, José!

Tudo bem, mas o que está em causa não é ser ou não ser licenciado ou seja lá o que for. O que está em causa, isso sim, para já, pelo menos, é saber se houve ou não houve falsidades veiculadas por documentos oficiais do Estado Português.

E está já provado, sem margem para dúvida, que houve mesmo essas falsidades em tais documentos.

Documentos - nota bem! - de três dos quatro Órgãos de Soberania da República Portuguesa, ou seja, da Presidência da República (acta da tomada de posse e Decreto Presidencial que divulga tal posse em DR), da Assembleia da República (Biografia dos Deputados, ano de 1993) e Governo da República (Portal na Web, onde a falsidade esteve patente durante dois anos). Estes quatro documentos contêm matéria configurando ilícito criminal da máxima gravidade.

Resta apurar de quem é a responsabilidade pelo acontecido, ou seja, quem inseriu - ou fez com que se inserisse - essas falsidades nos documentos. E mais, tratando-se de delito contra o Estado Português, é crime público e, portanto, o MºPº (a PGR) tem que actuar ex oficio, isto é, mesmo que não seja apresentada qualquer queixa.

Há que ser instaurado procedimento criminal contra "desconhecidos" e, no decurso das averiguações, tentar apurar quem são esses desconhecidos que actuaram daquela forma ilícita.

É bom que não confundamos as coisas.

Abraço para ti, José.

Ruben

Sulista disse...

A Páscoa da Cidadania, é uma Bola de Neve que já não pára!
Pra Frente é que é o Caminho!
Libertai-nos do Jugo dos Socratinos, já!!

Beijinho
;-)

Ruvasa disse...

Viva, MJoão!

Espero que sim, ou seja, espero que já não pare.

Beijinho

Ruben

pandacruel disse...

A Páscoa da cidadania - bela ideia - oxalá se possa engrandecer, eliminando lixos, naturalmente.

Ruvasa disse...

Viva, Pandacruel! (excelente nick!)

Oxalá, realmente.

Naturalmente, com alguma limpeza, claro!

Abraço

Ruben

Ruvasa disse...

Caro Ruben

Gostei da Páscoa da Cidadnia. De facto, hoje, mais do que nunca se justifica estimular a democracia representativa e a democracia participativa.

Mas, cuidado com os demagogos e com o perigo do populismo e dos efeitos
nefastos da retórica na sua capacidade de perverter a democracia e a manifestação da vontade popular.

Um abraço

AAlves

Ruvasa disse...

Viva, Alves!

Eu não receio.

Se a vontade popular for mesmo vontade, não receio seja o que for, porque a vontade popular tem força.

Precisa é de ser estimulada. Neste caso da Páscoa da Cidadania, há estimulação suficiente. Esperemos apenas que não se esvaia.

Abraço

Ruben