Pelo interesse de que se reveste e principalmente pelas verdades que deita em cara a uns quantos governantes arrogantes, autocráticos e pouco esclarecidos (como, por via de regra, costumam ser...) e a mais uns quantos imbecis que, embora sem as responsabilidades de quem governa, ajudam à "festa", não resisto a trazê-lo ao conhecimento de quem me lê:
Ao contrário do que se pensa, o Ministro Mário Lino não cometeu uma “gaffe”, quando se referiu à Margem Sul como sendo “um deserto”.
Na sua candura, o Ministro deu voz ao (pre)conceito, velho como a nação, de que “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”. Tentemos explicar melhor esta vetusta e elitista tradição, que, a meu ver explica a macrocefalia nacional e em grande medida o nosso subdesenvolvimento.
Profundamente desconfiado com a industrialização do país, - porque, com razão, a sabia associada ao surgimento do proletariado - aceitou a estritamente necessária, entregando-a aos barões do regime, que aliás controlava e protegia e situou-a em território inimigo, isto é, na Margem Sul.
Afinal, o paradigma era para manter. A mesma sobranceria e arrogância centralista e centralizadora dos governos, a mesma conivência dos seus agentes locais.
Um nascente e promissor “mercado de resíduos”, como se lhe referiu o Ministro do Ambiente, imagine-se, quando veio inaugurar mais uma lixeira no Parque Industrial da Sapec.
Um “mercado de resíduos” por cima do maior aquífero da Península Ibérica, precisamente quando um dos maiores problemas ecológicos actuais da humanidade, é a carência de água potável.
Os nossos intelectuais, particularmente activos enquanto jovens, e agora cada vez mais mediatizados, bem se desdobram em cargos e fóruns onde se discute o aquecimento global, enquanto, em casa, a contaminação industrial lhes entra pela porta do quintal, enquanto outros, também em vias de institucionalização, celebram os poetas mortos, não vão os vivos dizer alguma inconveniência.
Os partidos do chamado arco governativo impõe-nos líderes locais de opereta, sendo os mais proeminentes recrutados como administradores ou funcionários dos industriais menos escrupulosos, cujas campanhas políticas são por estes apoiadas e subsidiadas.
E, no fim de contas, a estratégia é tão clara, que ninguém a parece ver, de tão óbvia que é. Há um dedo gigantesco a apontá-la, mas os interesses e os poderes fácticos insistem em não o enxergar.
Setúbal necessita de valorizar decisivamente aquilo que tem de melhor e mais genuíno que é a sua natureza privilegiada e recusar este paradigma industrial obsoleto e voraz.
Setúbal é uma porta magnífica do oceano. Mas é necessário conhecê-la, estudá-la e investigá-la, tirando o melhor partido das suas riquezas. Elas estão aí, praticamente gratuitas, e para todos; é só não as corromper em benefício dos mesmos de sempre.
Até o actual Presidente da República Cavaco Silva, que nos visitou no âmbito do 10 de Junho o reconheceu, quando disse: “… o património oceânico é único e de recursos geológicos, minerais, biotecnológicos, energéticos que são muito relevantes”.
Afinal e apesar do Ministro para além do deserto há sempre o mar.
João Bárbara
Médico - Setúbal
Gentileza de Pedro Sérgio
...