Os portugueses têm de salvar-se de si próprios, para salvarem Portugal

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

1415. A ler: "D. Sebastião e o vidente"


Tempos atrás recomendei aqui uma leitura.

Precisamente o romance "A Fórmula de Deus" (Die Gottes Formel), de um dos dois escritores portugueses do momento de minha preferência, o inimitável José Rodrigues dos Santos - o outro é Miguel Sousa Tavares, de que li "O Equador" e estou a ler "Rio das Flores", este, até à fase em que vou, aí pela página 200, sinceramente bem melhor do que o primeiro.

Entretanto - e para absorver mais alguns ensinamentos e enquanto não me decido a escrever o meu próprio romance (uma epopeia de, para aí umas 800 a 900 páginas), que deixará o próprio JRS azul de sem fôlego e MST verde de invídia, mas também para disfarçar a minha indolência de escritor sem "aventura" e com certo "temor" reverencial e outros... -, tenho vindo a ler obras menores (em extensão e fôlego) que a capacidade de recepção já não é a que used to be...

No entanto, há cerca de dois meses atrás atirei-me (trata-se de uma forma de expressão que é igualmente força... muita força... - e vão já ver porquê...) à obra de Deana Barroqueiro, "D. Sebastião e o vidente", ou seja, um calhamaço de 640 páginas de uma escrita necessariamente - tanto quanto me parece - intrincada e redundante que deixa qualquer pobre de Cristo que ao fim chegue, completamente exaurido. Como é que não terá chegado Deana?!...

Não quero, com isto, dizer que não gostei do livro e que, portanto, o desaconselho.

Não, muito pelo contrário, entendo-o de leitura absolutamente indispensável para a compreensão de uma época da nossa História que, desde sempre, esteve mergulhada em névoa, como o próprio mancebo sifilítico. Rei que, talvez por efeito da doença que o consumia mas certamente pelas várias forças que o empurravam para caminhos escusos e por ausência de outras que o poderiam ter levado por outra senda, mas que não se atreviam a manifestar-se, conduziu o País, sem honra nem glória, antes muita impreparação, aliada a indesculpáveis descuido e ausência de sentido de Estado, a um desastre imenso, com consequências terríveis para a nação, perfeitamente evitáveis e que compulsivamente deveriam ter sido evitadas.

Com Sebastião, Portugal deixou de ser potência mundial e foi decaindo... decaindo sempre até à actual vil tristeza, hoje em dia mal disfarçada com arrogâncias injustificadas, por "vitórias" sobre "vitórias", esperemos apenas que não até à derrota final. Do País, evidentemente, que em outras não ponho grande cuidado. (Pois não é verdade que se considera vitória memorável o simples papel de dactilógrafo daquilo que se diz ser uma espécie de tratado, previamente cozinhado pelos chefs de cuisine? - ou será melhor dizer Küchenchefen?).


Mas regressemos ao que, nesta oportunidade, verdadeiramente importa:

Como se afirma na contra-capa, "O rei mais desejado da nossa história é, apesar de todas as esperanças da nação, um órfão falto de afectos, criado e educado por (...) uma avó sedenta de poder ou o cardeal regente, tornando-se (...) joguete involuntário dos desígnios imperialistas do seu tio, o implacável Filipe II de Espanha".

E, mais adiante:

"Caprichoso e insolente (...) cresce atormentado pelos fantasmas da adolescência (o percalço que, em Almeirim, numa noite de desvario e rapaziada, afinal compreensível, lhe trouxe a doença que nunca mais deixou de o atormentar e tanto poder teve também no desenrolar do acontecimentos), sublimados nos sonhos de glória de mancebo visionário, senhor de um poder absoluto (para que nunca esteve minimamente preparado) que o arrasta ao desastre (...).

Encha-se, pois, de tempo, de coragem para ler aos poucos e ir absorvendo, como que mastigando antes de deglutir, e leia o livro.

Vale a pena. Até mesmo pela dificuldade. Livro ligeiro não dá luta, que é, afinal, o melhor da leitura.

* * *

Um dia destes, virei aqui falar de mais obras. Outro livro de J. Rodrigues dos Santos, "O Sétimo Selo", que já li, e "Rio das Flores", de M. Sousa Tavares que estou a fazê-lo.

Enquanto não estiver em condições de tomar semelhante atitude relativamente ao que a mim mesmo devo há anos e anos, somente porque não encontrei ainda a estrutura que mais me parece a adequada e também não venci a tal indolência (ou receio de crítica?), falarei de outros...

- É a vida! - diria Antónimo Tu Erres!...
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