
As crises que puseram a independência, a soberania, a integridade do País e a dignidade individual do seu povo em grave perigo
Esta é, de longe, a pior crise que uma nação de mais de oito séculos e meio sofre nos nervos e, principalmente, no espírito!
É que esta é, além do mais, uma crise de valores, de postura perante a vida, de dignidade de carácter individual e de integridade nacional.
Refiro-me apenas às crises mais graves, evidentemente.
Vamos por partes:
* A primeira crise de que há registo é a de 1383-1385.
É certo que ela constituiu período de guerra civil e anarquia. E deu-se porque não havia rei. O poder estava na rua. Começou com a morte do rei Fernando, sem herdeiros masculinos.
Não foi, portanto, causada por qualquer português. Nem causada voluntariamente. Foi, pois uma crise normal. Das que acontecem a qualquer país, por muito prevenido que esteja.
Os portugueses, contudo, souberam como pôr-lhe termo. Com coragem, determinação e, acima de tudo, com gente capaz de os orientar. João das Regras, João, Mestre da Ordem de Avis e filho bastardo de Pedro I, e Nuno Álvares Pereira foram os homens que serviram a causa portuguesa como só verdadeiros portugueses são capazes.
E dois de nós, então, foram homens suficientes para cortar o mal pela raiz, ferindo de morte Juan Hernandez Andeiro, o galego que nos queria subjugar a Castela.
* A segunda, foi a crise de sucessão no trono português surgida com a morte súbita do rei Sebastião, em Alcácer-Quibir.
Claro que esta foi causada pela imprevidência de um jovem rei, inexperiente, assomadiço, com a desculpa de não se encontrar de posse de todas as faculdades necessárias ao exercício do cargo, por força de doença de origem sexual grave de que padecia e que, à época, era dificilmente curável.
Não se tratou, pois, igualmente de acto premeditado e friamente consumado.
Os Portugueses, contudo, souberam como pôr-lhe termo. Com coragem, determinação e, acima de tudo, com gente capaz de os orientar. Henrique, Prior do Crato, João de Bragança e sua mulher, Filipa de Vilhena, foram os homens e a mulher que serviram a causa portuguesa como só verdadeiros portugueses são capazes.
E quarenta de nós, então, foram homens suficientes para cortar o mal pela raiz e, de caminho, oferecerem ao traidor Miguel o prémio merecido.
* A terceira é a actual.
Foi, esta sim, causada por portugueses. Deliberada e voluntariamente. Não é, pois, uma crise normal.
E o que se impõe que se questione é o seguinte:
Não saberão os Portugueses como pôr-lhe termo? Faltar-lhes-ão a coragem – e nem é precisa muita… – a determinação, a determinação e, acima de tudo, gente capaz de os orientar?
A avaliar pelo que se viu no último 25 de Abril, falta-nos mesmo gente com o tal rasgo, com o tal golpe de asa que tudo leve à frente, de escantilhão, e tudo modifique, levando-nos a recuperarmos a dignidade de carácter individual e a integridade nacional perdidas!
Mas será que ninguém de entre nós será homem ou mulher suficiente para cortar o mal pela raiz e, de caminho, oferecerem o “prémio” a quem o merece?
Com urbanidade, com democraticidade, mas com firmeza, sem deixar lugar a quaisquer dúvidas?
Será que ainda teremos de passar pela ignomínia de constatarmos que efectivamente não há?
Ruben Valle Santos
2 Maio 2011
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